Recentemente, a influenciadora Virginia Fonseca compartilhou em uma live de vendas de cosméticos um relato sobre a sessão de terapia de sua filha, Maria Flor, 3 anos: “Ela foi indagada sobre como estava se sentindo. A resposta foi: lanchei demais e estou me sentindo barriguda”, contou.
O vídeo viralizou nas redes sociais e gerou identificação. Alguns perfis problematizam a quebra de sigilo da sessão de psicoterapia e a banalização de sinais que apontam para transtorno de imagem na infância.
De acordo com a médica psiquiatra voluntária do Ambulim, Ana Clara Floresi, uma criança exposta a discursos que reforçam a pressão estética, em casa ou nas redes sociais, fica vulnerável ao adoecimento mental. “Transtornos alimentares são multifatoriais, mas não é inato de uma criança tão pequena julgar o corpo como inadequado, isso reflete o que ela está ouvindo em seu entorno”, diz.
A exposição na primeira infância impacta na autopercepção e distancia o valor do corpo daquilo que é fundamental, sua funcionalidade, diz a especialista.
O diálogo deve ser com os adultos, com quem as crianças aprendem seus comportamentos, alerta a nutricionista Janaína Farias, especialista em transtornos alimentares. Na infância, é normal comparar aspectos do corpo, como cabelo e formato dos dedos, mas comentários que focam no padrão de beleza podem levar a criança à hipervigilância e julgamentos sobre si mesma. Ela alerta ainda que é preciso ter cautela e não se autodepreciar em frente às crianças, mas buscar ajuda psicológica para tratar suas próprias questões.
Nesse sentido, com o objetivo de instruir cuidadores de crianças, a psiquiatra Ana Clara lançou o livro infantil “Muitas Belezas”, junto de Daiana Garbin. O material debate a diversidade de corpos de forma lúdica, e propõe uma intervenção para os responsáveis, com instruções e um encarte elaborado a partir de uma base psiquiátrica sobre como lidar com imagem corporal, autoestima e o combate ao bullying.
Rodrigo Nejm, especialista em educação digital do Instituto Alana, também pede cuidado com a exposição de crianças nas redes. Ele enfatiza que elas não têm maturidade para lidar com possíveis efeitos que a repercussão pode causar, como comparações e o próprio bullying.
Para a nutricionista Maria Luiza Petty, manter crianças e adolescentes longe de veículos de divulgação de modelos de beleza também é fundamental para mitigar os efeitos nocivos da cultura da magreza.
Petty, phd especialista em transtornos alimentares pelo Ambulim, alerta que a exclusão de alimentos, diminuição de quantidades, evitação de receitas em situações sociais, como festas, assim como o aumento do consumo de salada, legumes e frutas, pode ser resultado do desejo patológico de emagrecer e devem gerar um sinal de alerta aos responsáveis.
Ela ressalta a importância de combater o terrorismo nutricional. “O ideal é buscar a comunicação de forma aberta com as crianças e, se necessário, buscar a ajuda de profissionais especializados em transtornos alimentares”. “Criança não faz dieta“, pontua Janaína.
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