Falta menos de uma semana para Donald Trump tomar uma decisão sobre a Groenlândia. Na próxima sexta (30) vence prazo para ele sancionar decisão do Congresso que reverteu cortes no maior programa do planeta para monitorar a saúde do gelo sobre o Ártico.
O manto congelado que se espalha do polo Norte tem dois componentes principais: gelo marinho, que boia sobre o oceano Ártico, e a calota que recobre a ilha da Groenlândia. Ambos estão em perigo, sob impacto do aquecimento global.
O mundo sabe disso em detalhes –no caso, quantos milhões de quilômetros quadrados sucumbem ao derretimento– graças ao Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo (NSIDC, em inglês) da Nasa. Até o ano passado, o centro publicava diariamente informações sobre a área da cobertura glacial.
São dados cruciais, para o bem e para o mal. No lado positivo do degelo despontam rotas encurtadas em até 40% entre Ásia e Europa, como alternativa à navegação pelo canal de Suez usando a passagem do Noroeste entre Groenlândia e Canadá, cada vez mais desimpedida (em 1845, o frio dizimou a expedição de sir John Franklin para mapeá-la).
No lado negativo pesa a calota groenlandesa, que chega a ter 3 km de espessura e contém um décimo de todo o gelo terrestre do globo (a maior parte do restante cobre a Antártida). Em caso de derretimento completo, que demoraria séculos, mas já começou, o nível dos mares subiria mais de 7 m.
O manto da Groenlândia vem derretendo nas últimas três décadas. De 2024 para 2025, a perda foi de 105 bilhões de toneladas de gelo, menor que em anos recentes, mas na tendência geral de diminuição. A área terminal de geleiras, onde esses rios de gelo lançam icebergs no mar, encolheu 5.000 km2 desde 1985.
Trump está de olho na circulação de navios militares e de carga, por certo, não na crise climática global. Para ele importa mais o acesso estratégico, tanto faz quanto gelo derreteu, exatamente: em 2025, o gelo marinho ártico atingiu 14,3 milhões de km2, sua menor extensão máxima de inverno em 47 anos de medições por satélite, segundo o NSIDC.
A atualização dos dados fundamentais se encontra agora ameaçada. O orçamento proposto pelo Executivo trumpista previa cortes hemorrágicos nas dotações para pesquisa das agências Nasa (aeronáutica e espaço) e Noaa (oceanos e atmosfera), respectivamente 47% e 27%.
Quem consulta a página do NSIDC hoje topa com o aviso: “Devido a financiamento não renovado, vários serviços e ferramentas Gelo Marinho Hoje estão agora suspensos ou reduzidos”.
O Congresso impôs um freio à investida obscurantista de Trump. Dez dias atrás, o Senado aprovou por 82 votos a 15 a restituição de US$ 1,67 bilhão (quase R$ 9 bilhões) à Noaa e de US$ 5,63 bilhões (R$ 30 bilhões) à Nasa (para comparação, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação contou aqui com R$ 2 bilhões em 2025). Na Câmara, a recomposição teve apoio de 397 deputados, contra 28 refratários.
A decisão que Trump tomar sobre tais fundos deixará claro se sua obsessão com o Ártico se alimentará também de dados objetivos, no futuro, ou só de voluntarismo. A boa notícia é que até parlamentares republicanos ensaiam algum comportamento racional em face do autocrata.
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