O tratamento de obesidade no Brasil esbarra na falta de diagnóstico, de preparo profissional e de medicamentos, na análise de especialistas ouvidos pela Folha.
Esses são os principais obstáculos para tratar a doença pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e, por consequência, reduzir a incidência no país, eles afirmam.
O Atlas Mundial da Obesidade 2025, com dados do ano anterior, mostra que 1 a cada 3 brasileiros é obeso, número que deve crescer nos próximos anos. O mesmo estudo estima que 68% da população tem sobrepeso.
O baixo índice de diagnósticos aparece em um levantamento recente do Datafolha. Segundo a pesquisa, quase 6 em cada 10 brasileiros estão obesos ou com sobrepeso, mas apenas 16% das pessoas já receberam um diagnóstico que aponte a condição.
Essa realidade enfraquece o tratamento logo no seu início, afirma o médico Bruno Geloneze Neto, pesquisador do Centro de Pesquisas em Obesidade e Comorbidades da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e professor na mesma universidade.
“O principal gargalo é a falta de pessoal treinado para fazer um diagnóstico completo da obesidade e das comorbidades e propor uma abordagem dietética comportamental, que receberá como apoio medicação e cirurgia”, diz.
Sem o diagnóstico, acrescenta o médico, é difícil definir com precisão as etapas do tratamento. “A indicação eficiente de uma [cirurgia] bariátrica, por exemplo, não exige apenas índice de massa corporal elevado, mas a presença confirmada de uma tentativa de perda ou manejo de peso durante ao menos dois anos.”
Esse processo deveria ocorrer com orientação para prática de atividade física e suporte psicológico, diz Geloneze Neto, uma realidade distante no país.
O motorista de aplicativo Carlos Barbosa perdeu o filho Samuel há seis anos. O jovem morreus aos 26 anos, meses após receber um balão gástrico para perder peso. Barbosa relata toda uma vida tentando cuidar do filho, que começou a ganhar peso ainda na infância e chegou aos 350 quilos.
“Meu filho engordou devido ao uso de muito corticoide na infância. Aos seis anos ele começou o tratamento para obesidade, e os médicos disseram que o corpo estava produzindo insulina em excesso, por isso ele engordava muito”, conta o pai.
Após o diagnóstico, o jovem foi encaminhado a outro hospital para investigar o que influenciava a condição. Mas a experiência não foi boa, e o tratamento nunca mais foi o mesmo.
“No outro hospital, o médico só mandava ele subir na balança e praticar atividade física. E dizia que ele engordava porque ‘comia demais’. Chegamos até a brigar e meu filho desistiu do tratamento.”
A família conta que, anos depois, decidiu contratar um convênio médico para Samuel. O jovem chegou a perder 150 kg após receber um balão gástrico e aguardava uma cirurgia bariátrica, mas morreu após um episódio de insuficiência respiratória.
“Samuel tinha o sonho de se casar, de ter uma família. O prazer dele era cortar cabelo, algo que aprendeu a fazer sozinho desde cedo. Fez muitos amigos cortando cabelo, era querido no bairro. Era um bom filho”, lembra Carlos.
Remédios e cirurgias
Outro problema é que faltam medicamentos no tratamento clínico, afirma Maria Edna de Melo, médica assistente do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da USP e integrante da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica).
“O programa do SUS preconiza alimentação e prática de atividade física, mas a medicação é nula. Com o tratamento clínico funcional, o paciente poderia ter resultados e, eventualmente, nem precisar de cirurgia. O que a realidade mostra, no entanto, são pessoas apenas esperando pela bariátrica”, diz Maria.
Mudanças no estilo de vida são parte do processo, mas não suficientes quando a obesidade é um fator genético, por exemplo. Entre as doenças crônicas, a obesidade está no conjunto das condições que exigem tratamento integrado. A depender do caso, pode exigir endocrinologista, cardiologista, psicólogo, psiquiatra, nutricionista e educador físico, tornando intensa a rotina dos pacientes.
Essas deficiências estão presentes em um contexto em que as canetas emagrecedoras atraem para si o centro da discussão sobre obesidade e sobrepeso no país, mas há outras drogas a se considerar.
A especialista cita a sibutramina como exemplo. Trata-se de um medicamento inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina, promovendo a saciedade. O remédio, que custa entre R$ 30 e R$ 80 em farmácias, teve sua incorporação ao SUS negada pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde).
Segundo o órgão, a substância apresentou bons resultados no curto prazo, mas usuários voltaram a ganhar peso no longo prazo. O impacto orçamentário, assim, inviabiliza a adoção, que poderia custar de R$ 769,5 milhões a R$ 2,9 bilhões em cinco anos.
“A sibutramina custa R$ 30, e o Mounjaro, R$ 3.000. Na prática, a medicação seria utilizada com o paciente que é bom respondedor, e com critérios para retirada. Ela não seria, óbvio, usada em pacientes com contraindicação, mas tem baixo custo e excelentes respostas em muita gente. Ajudaria muito”, afirma Melo.
Denis Pajecki, especialista em bariátrica e coordenador do Departamento de Cirurgia Bariátrica da Abeso, afirma que a ampla maioria das pessoas em tratamento vai precisar de medicamentos.
“Assumindo um número de 50 milhões de obesos no Brasil, como sugerem pesquisas, apenas 5 milhões serão candidatos à cirurgia, 10%. As medicações são necessárias para os outros 45 milhões, que vão precisar de estímulos”, diz.
Pajecki reforça que a cirurgia deve ser recomendada ao paciente sem sucesso no tratamento clínico, etapa que incorpora, além de alimentação regrada e atividade física, a prescrição de medicamentos. Somando-se a esses dois gargalos, ele diz que o índice de bariátricas no Brasil é aquém do necessário.
Segundo o Ministério da Saúde, o SUS realizou 14.014 procedimentos em 2025, “mais que o dobro das cirurgias realizadas em 2022”, último ano da gestão anterior.
“A média mundial de acesso à bariátrica é baixa, de 1% a 1,5% dos candidatos por ano. Aplicando à realidade brasileira, isso seria algo em torno de 35 a 40 mil cirurgias por ano. O país realizou, nos últimos anos, próximo de 10 mil cirurgias. Ou seja, precisaria triplicar esse número”, diz o especialista.
Atendimento foi ampliado, diz Ministério da Saúde
Em nota, o Ministério da Saúde afirma que realizou 9,7 milhões de atendimentos relacionados à obesidade em 2025. “Um crescimento de 57% em relação a 2022. Esse aumento comprova a ampliação progressiva do acesso aos serviços de saúde.”
A pasta também diz investir em “ações preventivas, como a estratégia Viva Mais Brasil, que recebeu R$ 340 milhões em políticas de promoção da atividade física”, incluindo o credenciamento de 1.775 academias pelo Brasil.
Por fim, o Ministério da Saúde afirma que solicitou à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) prioridade no registro de remédios à base de semaglutida e liraglutida, princípios ativos do Ozempic e do Saxenda, respectivamente.
“Com a entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e aumento da concorrência, os preços devem cair de forma significativa. Esse é um fator determinante para a análise de possível incorporação no SUS”, afirma.
A obesidade é consequência de múltiplos fatores: predisposição genética, falta de exercícios físicos e alimentação rica em gorduras e açúcares –presentes nos alimentos ultraprocessados, por exemplo– são causas turbinadas em classes sociais baixas.
“A pessoa com obesidade entra no ônibus e no metrô como uma pessoa gorda. Muita gente pensa ‘como deixou chegar nesse ponto’, mas as decisões são muito mais instintivas do que racionais, e se alguém tem uma coxinha, uma bolacha para comer, não vai ficar com fome. A depender da genética, a pessoa vai engordar só de ‘olhar’ para um lanche, enquanto outra pode comer dez vezes a porção, sem engordar”, conclui Maria Edna de Melo.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.