Uma nova tendência de moda e beleza é criada por semana. Mas a estética conhecida como “clean girl” (garota limpa, em tradução literal), que se define pela “naturalidade e leveza”, vem se sustentando e segue guiando lançamentos de produtos. Para a maquiadora e empresária Daniele da Mata, no entanto, esse look não dialoga com a população negra.
Da Mata identifica uma demanda por produtos de alta cobertura e durabilidade, em contraste com a estética em alta que, para ela, é de origem branca e europeia. Ela afirma que sua análise tem como base a vivência da comunidade negra e sua experiência como especialista em beleza.
A profissional foi responsável por criar a primeira escola de maquiagem especializada em pele negra do Brasil, em 2012, aos 21 anos: a Damata Makeup. A ideia era abrir espaço em meio a uma indústria de cosméticos que ignorava as necessidades dessa população.
“Eu não estava só fazendo maquiagem, estava tentando colocar em execução as coisas que estavam em pauta nas reuniões, nos congressos, nas brigas, nos choros, nas amizades, em tudo”, afirma.
Da Mata se consagrou e encabeçou, em 2020, uma parceria com a Avon, na qual desenvolveu nove tons de base para a pele negra e a campanha “Essa É a Minha Cor”.
Como consultora, trabalhou no desenvolvimento das cores e repaginação da marca Contém 1g. Também desenvolveu a base da influenciadora Bruna Tavares em 2020, um lançamento com 30 tonalidades em que os tons mais escuros foram os mais vendidos.
A falta de produtos, ela diz, afeta diretamente e de forma negativa a autoestima dessas mulheres. “Quando a gente tem o produto, fica mais fácil se sentir bonita, né? O problema é você já não se sentir bem, a sociedade já falar que você não é [bonita], e aí você ainda não ter acesso ao produto”, diz.
Para da Mata, a necessidade de alta cobertura e correção, que envolve base matte, corretivo e pó, está ligada diretamente a um efeito colateral do “boom do skincare”.
Conforme aumentou a busca por cuidados com a pele, consumidoras negras passaram a usar produtos que, em vez de ajudar, causaram manchas escuras, melasmas e hiperpigmentação. Surgiu, então, uma prioridade de uniformizar o tom da pele com maquiagem de alta cobertura —o oposto da estética “clean girl”.
Essa preferência se relaciona também com o contexto de vida. Da Mata defende que, para a mulher negra, que precisa trabalhar, pegar transporte público e lidar com o calor e a umidade, a maquiagem precisa durar.
Como tendência de crescimento, a especialista em beleza vê os spray fixadores de maquiagem. No entanto, as fórmulas são um grande desafio. Muitos fixadores criam uma película branca que, em pele negra, reflete a luz e fica visível, especialmente com flash. A indústria ainda precisa acertar na formulação para atender esse público, diz.
Para isso, ela defende a necessidade de haver pessoas negras como parte do processo criativo. “Se não tem uma pessoa preta ali, a pessoa branca também não vai pensar nesses aspectos, porque isso não é um problema dela. Ela vai resolver os problemas dela. Quais são? Rosáceas. Quais os problemas da população negra? A gente tem manchas escuras.”
Além da maquiagem, a estética que conquista mulheres negras, na visão da maquiadora, inclui cílios postiços e extensões. A preferência é por procedimentos com longa duração. “A praticidade de acordar com o olho pronto fala mais alto”.
Outro ponto importante é o cabelo. Na estética “clean girl”, ele costuma ser preso e bem alinhado em um coque baixo. Para as mulheres negras, Da Mata diz que a prioridade não é necessariamente o cabelo solto com movimentos naturais, mas bem definido, com alta fixação. Se for o caso de um coque, ele é alto, no topo da cabeça, e com os baby hairs perfeitamente modelados.
Nos lábios, a técnica da vez é o “lip combo” (combo dos lábios), que consiste em contornar os lábios com lápis e preenchê-los com batom e gloss. Essa estética remonta aos anos 2000 e é apreciada pela comunidade negra.
Desde o início de seu caminho profissional, a beleza para da Mata está ligada à identidade, e a maquiagem vai além da estética. É como uma ferramenta que une a comunidade — o que continua fazendo em suas redes sociais, onde compartilha dicas para suas seguidoras.
“A maquiagem me traz de volta. Sempre. É a hora em que você está se sentindo triste, quando você está se olhando, quando você não está se amando, nada está acontecendo, é bom você sentar e se maquiar para voltar.”
DICAS DA DAMATA
O que é beleza: Identidade.
Um classico: MAC Batom Matte Antique Velvet. “Marrom que vai com todos os tons de pele”
Uma tendência: Lip Combo. “Graças à deus o lápis voltou. Eu nasci nos anos 1990”.