Refletir sobre escolhas nem sempre deixa você mais seguro – 15/02/2026 – Equilíbrio

Você já tomou uma decisão e, momentos depois, começou a questioná-la? Talvez você tenha falado em uma reunião e imediatamente se perguntado se disse algo errado, ou saído de um evento social se sentindo confiante, mas depois repassou suas ações na cabeça e ficou inseguro. Para muitos de nós, refletir sobre nossas escolhas nem sempre traz tranquilidade —às vezes, alimenta a insegurança.

Como cientista cognitivo, fico fascinado por essa diferença entre o que as pessoas sabem objetivamente e o quanto se sentem confiantes. De fato, seu nível de confiança pode afetar muitas coisas —se você se manifesta ou coloca suas ideias em prática, quanto você estuda para uma prova ou se mantém firme em suas decisões. Mas a maneira como a confiança se desenvolve, ou se deteriora, pode variar drasticamente entre as pessoas.

Dois fatores em particular parecem desempenhar um papel importante: ansiedade e gênero. Pessoas com níveis mais elevados de ansiedade frequentemente relatam sentir-se menos confiantes em suas decisões do que pessoas não ansiosas, mesmo quando suas escolhas são igualmente precisas.

A ansiedade pode fazer com que os pensamentos entrem em um ciclo vicioso: “e se eu tiver feito a escolha errada?”; “será que deixei passar alguma coisa?”. E esses loops mentais podem minar a confiança ao longo do tempo.

Mulheres também tendem a relatar níveis de confiança mais baixos do que os homens em uma variedade de tarefas, apesar de terem um desempenho igualmente bom.

Acredita-se que isso se deva a fatores sociais e culturais. Feedback, expectativas podem influenciar sutilmente a autopercepção, tornando as mulheres mais propensas a subestimar suas habilidades.

Confiança ao longo do tempo

Com essas diferenças em mente, comecei a me perguntar: se a confiança é moldada de forma tão diferente pela ansiedade e pelo gênero, o que acontece quando as pessoas passam mais tempo pensando sobre uma decisão? A reflexão ajuda a todos ou pode levar algumas pessoas a duvidarem ainda mais de si mesmas?

Para responder a essa pergunta, meus colegas e eu observamos em nosso novo estudo como os participantes realizavam diferentes tarefas de memória e discriminação visual, enquanto avaliavam sua confiança após cada resposta. Ao acompanhar como essas avaliações mudavam com o tempo, pudemos ver como a confiança muda à medida que as pessoas refletem sobre suas decisões —e como essas mudanças diferem dependendo do gênero e da gravidade dos sintomas de ansiedade.

O que descobrimos foi que os participantes com maior ansiedade não eram apenas pouco confiantes, e passar mais tempo pensando os tornava ainda menos seguros de si mesmos. Isso acontecia mesmo quando suas respostas estavam corretas.

Para as mulheres, no entanto, a reflexão extra teve o efeito oposto. Analisar cuidadosamente a tarefa permitiu que elas se sentissem gradualmente mais confiantes. Com o tempo, isso reduziu a diferença de confiança habitual entre mulheres e homens, até que ambos os sexos ficaram igualmente certos de suas decisões.

Em resumo, descobriu-se que o mesmo comportamento, refletir sobre uma decisão, tem efeitos opostos dependendo do fator (gênero ou ansiedade) que fez com que a pessoa se sentisse insegura em primeiro lugar.

Por que isso é importante

Então, por que pensar por mais tempo produz resultados tão diferentes? Para pessoas ansiosas, parece que um tempo de reflexão mais longo pode se tornar ruminativo, amplificando preocupações e erros imaginários. Já para as mulheres, a reflexão pode ser construtiva, permitindo uma consideração cuidadosa das evidências e do desempenho.

Essa distinção destaca um ponto simples, mas poderoso: a confiança não tem a ver com quanto tempo você pensa, mas com como você pensa. Em outras palavras, a deliberação que avalia cuidadosamente as evidências pode aumentar a confiança, enquanto a ruminação pode corroê-la.

Então, o que isso significa para futuras tomadas de decisão?

Bem, se você tende a ser ansioso, pensar mais nem sempre é melhor. Limite a ruminação, concentre-se em evidências concretas e estabeleça regras de decisão claras para evitar que sua confiança entre em uma espiral descendente.

E se você é mulher e tende a subestimar suas habilidades, reservar um tempo para revisar as evidências e os resultados pode ajudar sua confiança a refletir melhor a realidade.

Você pode perguntar: mas e se eu for mulher e tiver ansiedade, como devo reagir? Bem, isso dependeria de qual dos seus vieses é mais dominante, o relacionado à ansiedade ou o relacionado ao gênero.

Se os dois forem semelhantes, então sua falta de confiança pode permanecer a mesma ao longo do tempo: não melhorando, mas também não piorando. Para você, pode valer a pena experimentar as duas formas de tomada de decisão em uma situação de baixo risco para ver qual funciona melhor.

O ponto principal, porém, é que não existe uma regra única que sirva para todos, como “pare de pensar demais” ou “pense com mais cuidado” quando se trata de tomadas de decisão.

Em vez disso, você deve se concentrar em estar ciente de como os hábitos emocionais e sociais da sua mente moldam seus níveis de confiança, para que possa fazer melhores escolhas e confiar em si mesmo quando for justificado. Isso pode ajudar a transformar a reflexão de uma fonte de dúvida em uma ferramenta para a autoconfiança.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Autoria: FLSP

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