Arash Javanbakht estava montado em uma mula na margem sul do Grand Canyon, nos Estados Unidos, quando se lembrou de que tem pavor de altura.
“Eu conseguia ver minha morte lá embaixo”, diz Javanbakht, psiquiatra e diretor da clínica de pesquisa sobre estresse, trauma e ansiedade da Universidade Estadual de Wayne, em Michigan. “Tentei me distrair.”
Javanbakht entende muito bem de medo. Ele escreveu um livro inteiro sobre o assunto —”Afraid: Understanding the Purpose of Fear and Harnessing the Power of Anxiety’ [Com medo: entendendo o propósito do medo e aproveitando o poder da ansiedade]. O fato de ele ter decidido descer o Grand Canyon montado em uma mula diz muito sobre como ele lida com o medo: encarando de frente.
“Se tenho medo de algo, mas sei que não é perigoso, eu vou. Eu me esforço para chegar lá. Porque se eu continuar evitando, se eu procrastinar, as coisas vão piorar”, disse.
O medo é um mecanismo de sobrevivência que pode realmente te proteger de danos. Mas ele pode ser excessivamente sensível para o mundo moderno, fazendo você se sentir ansioso e com medo de uma forma prejudicial, segundo Javanbakht.
Se um medo ou ansiedade causa sofrimento ou disfunção significativos na vida diária, pode se tornar um transtorno diagnosticável. Em seu laboratório, Javanbakht está usando realidade aumentada —uma tecnologia em que uma imagem gerada por computador é sobreposta à visão do mundo real— para expor pacientes a ambientes que eles normalmente evitariam, como um supermercado movimentado ou uma mesa com uma aranha.
Para a maioria das pessoas, o objetivo não é necessariamente se livrar do medo e da ansiedade. Em vez disso, o pesquisador sugere que as pessoas tentem reconhecer e apreciar a motivação que isso proporciona.
“Eu ainda sinto. Meus joelhos tremem um pouco, mas eu também gosto disso.”
Javanbakht conversou com o jornal The Washington Post sobre a natureza do medo e como podemos lidar melhor com situações assustadoras ou que provocam ansiedade em nossas vidas.
As pessoas costumam usar ansiedade e medo como sinônimos. Existe alguma diferença?
O medo tem um objeto claro de ameaça percebido. Digamos, se eu tenho medo de cachorros e há um cachorro aqui, se alguém está apontando uma arma para mim, se estou na beira do Grand Canyon e tenho medo de altura, isso é medo. Há um objeto de ameaça claro e identificável que eu percebi.
A ansiedade é mais vaga. A ansiedade é mais antecipatória.
Vamos usar novamente o exemplo do medo de cães. Me disseram que alguém pode vir a esta festa com um cachorro. A partir dessa informação, começo a avaliar a possibilidade de uma ameaça. Não há nenhuma ameaça clara à vista, mas estou atento ao perigo que pode potencialmente ocorrer.
A maioria dos nossos desafios na vida moderna são ansiedades. Nos preocupamos, ou temos medo, de coisas incertas. E essa preocupação é uma forma de controle. Pensamos que, se continuarmos a nos preocupar com isso, estaremos preparados para impedir que aconteça.
Dizem-nos para vencermos os nossos medos. Será essa a melhor abordagem?
O motivo pelo qual não gosto da expressão “vencer seus medos” é porque o medo faz parte de você.
Como você poderia dominar uma parte de si mesmo? Você não pode matar uma parte de si mesmo. Você não pode destruir uma parte de si mesmo. Não é um apêndice infectado que você pode arrancar e jogar fora. Você não pode jogar fora sua amígdala, certo?
O medo é uma reação muito primitiva, muito importante e abrangente contra qualquer sinal de ameaça. Naquela época, era seu melhor amigo, pois o medo servia para manter você vivo e sua tribo viva. Não era algo a ser vencido.
O medo correspondia aos perigos daquela época primitiva, que eram todos físicos —outro ser humano, um predador ou uma pedra caindo na cabeça. É por isso que todas as respostas de “luta ou fuga” são, em sua maioria, físicas.
É como se houvesse um ser humano primitivo dentro de mim agora, neste exato momento. E esse ser humano primitivo vê os perigos no ambiente e está tentando me proteger. Mas as ansiedades da vida moderna são muito diferentes dos medos e perigos que tínhamos no passado.
Mesmo que eu perca meu emprego, se eu for demitido, isso não significa que vou morrer, mas meu corpo está reagindo como se eu estivesse prestes a morrer.
Como saber se um medo é racional ou não?
Quando você se deixa levar pelas emoções, é muito difícil ser lógico.
O que costumo dizer aos meus pacientes é que, quando estiverem numa situação em que não conseguem decidir se devem ou não sentir medo, pensem numa pessoa sábia em quem confiam. O que essa pessoa lhes diria nesse momento? Isso nos ajuda a nos distanciarmos da emoção e a sermos mais racionais.
Muitas vezes, as pessoas evitam o medo. É uma emoção negativa e você quer evitá-la. Eu digo: Não, concentre-se no que está acontecendo no seu corpo. Veja qual é a sensação. Porque, quando você nomeia a emoção, ela diminui.
Mas se eu tenho medo de tubarões, não deveria simplesmente ficar longe do oceano?
A maioria dos medos que adquirimos nós não tínhamos ao nascer. Por exemplo, alguém assiste ao filme “Tubarão” e passa a ter fobia de tubarões.
Ao adquirir conhecimento ou habilidades, você ganha uma sensação de controle, que é outro aspecto muito, muito importante para lidar com o medo. Um dos meus pacientes tinha muito medo de tubarões, mas gostava de estar no oceano. Então, ele começou a aprender sobre quais partes dos oceanos têm tubarões, quais tubarões são potencialmente perigosos, quais são os riscos, qual a porcentagem de ataques de tubarão e, então, o medo diminuiu.
O paradoxo é que quanto mais medo eu tenho, mais eu evito. O sistema do medo diz: “Não vá lá. É perigoso.”
Então, nada de ruim acontece e o cérebro diz: “Viu? Eu te disse. Fique aqui e você estará seguro.”
Por que tantas pessoas gostam de coisas que provocam medo, como filmes de terror e montanhas-russas?
Parte disso se deve à sobreposição entre a biologia do medo e a da emoção. Quando você está realizando alguma atividade emocionante, seu coração bate mais rápido, seu sistema nervoso simpático é ativado e sua atenção se concentra e se aguça.
Já vi muitas pessoas ansiosas que adoram filmes de terror porque, ao vivenciarem a ansiedade de sempre, elas estão no controle. Estão seguras. Sabem que o medo não vai lhes fazer mal.
O que você diria às pessoas sobre como lidar com seus medos?
Uma coisa que digo aos meus pacientes como motivação é que a sua liberdade é a coisa mais importante que você tem. E você não quer ser escravo do seu medo. Você não quer abrir mão da sua liberdade.
Não tenho problema nenhum se você não quiser ficar perto de cachorros ou aranhas, ou se não quiser ir à loja ou a uma festa, se essa for a sua escolha. Mas você não quer que o medo tome essa decisão por você. Você só vive uma vez e quer viver essa única vida ao máximo.
Ter medo não é sinal de fraqueza. As pessoas sentem vergonha ou constrangimento porque pensam que são as únicas que se sentem assim. Mas, transtornos relacionados ao medo e à ansiedade são muito comuns.