Uma pergunta que não vai embora indaga se substâncias psicodélicas, pela reverência que induzem à natureza, não poderiam deter a crise ecológica. Em tempos de COP30, novo ato da comédia de erros em cartaz desde 1992, convém exorcizar a noção de que medicinas da floresta teriam o condão de despertar consciências e desarmar a bomba do clima.
Os argumentos a seguir foram desencadeados pela entrevista da antropóloga Justine Quijada à jornalista Shayla Love. Sua conversa sobre animismo e xamanismo psicodélico saiu segunda-feira (10) no boletim The Microdose.
Há algum simbolismo em que a Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC, em inglês) tenha sido adotada na Cidade Maravilhosa, na Rio-92, e 33 anos depois desemboque em Belém do Pará, porto de entrada para a maior floresta tropical do mundo, ora em risco de colapso na pira do aquecimento global.
A floresta amazônica, além de sumidouro gigantesco de carbono, abriga duas centenas de povos indígenas. Suas terras são as mais conservadas do Brasil, com apenas 1% desmatado desde 1985, segundo o consórcio MapBiomas, contra 20% derrubados em áreas privadas.
Várias dessas etnias, talvez a maioria, utilizam plantas contendo psicodélicos, na forma de bebida ou pó. Chacrona e cipó-mariri, ou jagube, compõem o chá ayahuasca; com a resina da virola se faz o rapé yekoana, e das sementes de angico se obtém o yopo.
Cosmologias de povos originários atribuem alma, espírito, personalidade –traduções canhestras para conceitos incongruentes com o nosso materialismo– a tudo no mundo. Plantas, animais e elementos da paisagem, como montanhas, rios e cachoeiras, são seres sociais, não só os humanos vivos ou seus ancestrais.
Aquelas substâncias são ferramentas para facilitar a comunicação, não raro a negociação, com essas entidades poderosas. Em geral são os pajés que transitam entre essas sociedades, mas os preparados psicodélicos também podem ser usados por outras pessoas em certas situações.
Forjou-se então, entre não indígenas fascinados com as chamadas plantas de poder, uma associação direta entre alteração da consciência e valores de preservação da flora e da fauna. É uma visão um tanto romantizada, a do bom selvagem chapado em harmonia com a natureza.
Quijada alerta que essa concepção diz mais sobre a mentalidade ocidental, em seu incômodo materialista, do que sobre a maneira de estar no mundo dos povos originários. O que concebemos como natureza e cultura separadas seria para eles um domínio comum, povoado por pessoas não necessariamente humanas.
Entidades nem sempre amistosas, que podem trazer epidemias, fome, garimpeiros. Tratar com elas, no transe psicodélico, não se traduz sempre como encontros de paz e amor. Essa é a noção edulcorada por brancos que se redescobrem parte da natureza e, por contraste com a desumanidade da própria cultura, concluem que tal pertencimento conduz à sabedoria ancestral fundada na harmonia.
Basta mencionar defensores de psicodélicos como Robert Kennedy Jr., Peter Thiel e Elon Musk para entender que tais compostos não são necessariamente veículos de convicções ecológicas, pacifistas ou altruístas. Nem todo xamanismo é do bem, como se viu pela fúria de Jake Angeli –o xamã QAnon, aquele dos chifres– na invasão do Capitólio em 2021.
Alguns dos adeptos mais fervorosos de Messias Bolsonaro eram líderes da religião ayahuasqueira União do Vegetal. Padrinhos do Santo Daime, pesquisadores psicodélicos e xamãs indígenas ou não também se envolvem em casos de abuso sexual ou espiritual.
Latifundiários desmatadores podem consagrar ayahuasca ou rapés e, ainda que sejam exceção, seguir acreditando que trabalham pelo futuro do Brasil e para alimentar o mundo. Só o interesse próprio, na monetização de créditos de carbono por renunciar ao desmate, talvez os converta à causa ambiental.
O desmatamento na amazônia recuou, mas o mesmo governo de Luiz Inácio Lula da Silva trabalha para aumentar a exploração de petróleo. O planeta continua dependente de combustíveis fósseis. Emissões de carbono permanecem em alta, e 2025 caminha para se tornar o segundo ano mais quente na história, com ou sem COP30.
Não, psicodélicos não se qualificam como panaceia contra eventos extremos como o ciclone semeador de tornados no Paraná. Em uma década, 250 milhões de pessoas –70 mil por dia– deixaram suas casas devastadas pelo clima.
A natureza, agredida pela cultura do desenvolvimento insustentável do capitalismo, testemunha infernos artificiais pela liberação de forças com as quais nem todos os pajés do mundo conseguiriam negociar –nem os diplomatas e ambientalistas reunidos em Belém.
O céu está caindo sobre nossas cabeças. Contra a epidemia de destruição, psicodélicos não seriam mais que um placebo, a cloroquina da crise climática.
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