Projeto une HC e Sírio em novo jeito de cuidar de diabetes – 01/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

Um novo modelo de cuidado para pessoas com diabetes tipo 2 atendidas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) começa a ser testado a partir desta semana por meio de uma parceria entre o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) e o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

A proposta é ir além da prescrição de medicamentos, tradicionalmente o eixo do tratamento, priorizando mudanças sustentáveis no estilo de vida e maior participação do paciente no próprio tratamento.

O programa tem duração de um ano e a expectativa é incluir até 40 novos pacientes por mês. Adultos entre 45 e 65 anos, em geral com a doença fora de controle, são o público-alvo.

O acompanhamento será dividido: o Sírio-Libanês ficará responsável pelos exames e pelo cuidado multiprofissional voltado ao diabetes, enquanto o HC mantém o seguimento clínico geral dos pacientes. Ao fim de um ano, a pessoa retorna integralmente ao HC.

“A gente sabe da complexidade que é cuidar de alguém com diabetes. Apostamos muito em tratamento com remédio, mas certamente a mudança do estilo de vida é o pilar mais importante, não só para o diabetes, mas também para muitas outras comodidades, como pressão alta, obesidade“, diz Felipe Duarte Silva, gerente de práticas médicas e pacientes internados do Sírio-Libanês.

O programa reúne equipe multiprofissional —com enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos— e inclui atividades individuais e em grupo, oficinas, acompanhamento remoto e definição de metas personalizadas de cuidado. Um dos pilares é o chamado letramento em saúde, ou seja, ajudar o paciente a entender a própria doença e a tomar decisões no dia a dia.

A população adulta brasileira com diabetes deu um salto em 18 anos. Passou de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024, alta de 135%, segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde na última quarta-feira (28). São cerca de 25 milhões de pessoas. Além do risco de infarto, AVC e insuficiência renal, o diabetes mal controlado está associado a amputações, cegueira e piora importante da qualidade de vida.

A médica Maria do Patrocínio Tenório, professora associada da clínica médica do HC, conta que há muito tempo a equipe do hospital pensava em ofertar alguma coisa diferente aos pacientes com diabetes. “No Brasil ainda impera o modelo em que eu [o paciente] te entrego a minha doença e você faz com ela o que você quiser. Eu não me envolvo nesse plano de cuidado”, relata.

Segundo ela, os residentes de clínica médica, que atendem pacientes com diabetes no ambulatório, costumam dizer que a sensação é a de enxugar gelo. “Você faz, faz, faz, vê esses pacientes a cada mês ou a cada dois ou a cada três meses, mas as coisas não melhoram porque existem aspectos sociais, psicológicos, de todos os níveis. Daí a importância de uma equipe multiprofissional”, afirma.

O modelo tradicional de cuidado do diabetes também ignora, muitas vezes, as condições concretas em que o paciente vive. Por exemplo, o médico pede para a pessoa caminhar, mas ela mora em um lugar violento ou passa horas no transporte público.

“Eu mesma já pedi para uma paciente que mora na periferia caminhar e ela sofreu um sequestro relâmpago. A sorte é foi liberada logo depois. Ela disse pra mim: ‘caminhada tá fora de cogitação, a senhora pensa em outra coisa.'”

A ideia do projeto é que o tratamento caiba na vida real do paciente. Nutricionistas, por exemplo, devem trabalhar com alimentos acessíveis e estratégias práticas, como melhor aproveitamento de feiras livres. “A primeira coisa vai ser desconfigurar essa ideia de que eles vão precisar gastar muito dinheiro com uma alimentação saudável”, diz a médica.

Enfermeiros farão o acompanhamento contínuo, inclusive à distância, ajudando a monitorar metas definidas em conjunto. “A gente precisa criar uma meta que seja atingível. Isso faz com que ele mude, até porque aquilo está mais pertencente ao contexto e à realidade dele”, explica Felipe Duarte.

“Mais do que engajar, a gente quer ativar o paciente”, acrescenta Luiz Francisco Cardoso, diretor de governança clínica do Sírio-Libanês. “O médico consegue estar com a pessoa algumas horas por ano. O resto do tempo ela está sozinha com a doença. Ela precisa ter informação, apoio e ferramentas para mudar a trajetória da própria saúde.”

Além das consultas, os participantes terão acesso no Sírio a exames que não fazem parte da rotina do SUS, como bioimpedância, avaliação digital do fundo de olho e análise da pisada, usados para rastrear precocemente complicações, especialmente nos pés. A retinografia poderá ser feita com equipamento portátil, com laudo remoto e apoio de inteligência artificial.

A iniciativa terá ainda um braço de pesquisa. Os pesquisadores vão acompanhar indicadores clínicos, qualidade de vida e também a satisfação dos pacientes com o programa_um desfecho ainda pouco explorado em serviços públicos. Haverá ainda um subestudo para entender por que alguns participantes não conseguem aderir às propostas.

A expectativa dos idealizadores do projeto é que os resultados ajudem a embasar mudanças mais amplas no SUS. “Queremos gerar evidências para mostrar que esse modelo é viável e pode ser adaptado à rede pública”, afirma Tenório. “Não é só sobre diabetes. É sobre como cuidar melhor de pessoas com doenças crônicas, olhando para a vida delas e não apenas para os exames.”

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Autoria: FLSP

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Scroll to Top