Escovar os dentes é um hábito cotidiano que muita gente encara como tarefa quase automática. Mas fazer a escovação rápido demais pode comprometer um dos principais mecanismos de proteção contra a cárie: a ação do flúor presente no creme dental, que não chega de maneira adequada aos dentes.
Essa é a conclusão de dois estudos realizados na Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas (FOP-Unicamp) e publicados nas revistas Brazilian Dental Journal e Pesquisa Brasileira em Odontopediatria e Clínica Integrada.
Durante a escovação, o fluoreto (forma ativa do flúor) presente no creme dental atua reduzindo a desmineralização do esmalte dentário provocada pelas bactérias após o consumo produtos açucarados, por exemplo.
“O fluoreto é, ainda hoje, a única substância capaz de reduzir de forma eficaz o impacto da cárie. Escovar os dentes com pasta fluoretada é uma verdadeira fluorterapia diária feita pelo próprio paciente”, explica o cirurgião-dentista e pesquisador Jaime Cury, professor da Unicamp e mentor dos estudos.
O problema é que nem sempre todo o flúor presente no creme dental chega, de fato, aos dentes. Para investigar esse processo, o grupo liderado por Cury avaliou como marcas diferentes de cremes dentais agiam durante a escovação. Em uma parte da investigação, voluntários escovaram os próprios dentes e, em outra, a escovação foi feita em laboratório.
Os pesquisadores observaram que alguns cremes dentais liberam mais de 80% do flúor, enquanto outros soltam apenas cerca de metade desse conteúdo, ainda que tenham a mesma concentração de flúor indicada no rótulo. Na prática, isso significa que a quantidade de flúor que chega aos dentes durante a escovação pode variar significativamente.
“O ponto mais importante não é apenas quanto flúor está declarado no rótulo, mas quanto desse fluoreto está realmente solúvel e disponível para ser liberado na boca durante a escovação”, explica Jaime Cury.
As características físicas do creme dental, como ser mais “ralo” ou mais “espesso”, influenciam diretamente esse processo. Pastas mais fluidas tendem a liberar o fluoreto com mais facilidade, permitindo que ele se dissolva na saliva e alcance melhor a superfície dos dentes. Já cremes mais espessos podem reter parte desse flúor, reduzindo sua disponibilidade. “Quanto mais estruturada e viscosa é a formulação, maior a tendência de liberar o fluoreto de forma mais lenta”, diz o pesquisador.
Do ponto de vista clínico, essa diferença pode ter impacto ao longo do tempo, especialmente em pessoas com maior risco de cárie.
“A prevenção depende de uma exposição frequente e eficaz ao flúor. Se, diariamente, menos fluoreto chega aos dentes, o efeito protetor pode ser reduzido”, alerta a cirurgiã-dentista Bruna Fronza, professora doutora do curso de Odontologia da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
A boa notícia é que atitudes simples ajudam a compensar esse efeito. “A principal mensagem para a população é não ter pressa ao escovar os dentes. Uma escovação mais demorada permite melhor remoção do biofilme bacteriano e aumenta o tempo de contato do fluoreto com os dentes, elevando sua eficácia e potencializando sua ação protetora, especialmente quando a liberação do flúor pelo creme dental é mais lenta”, reforça Cury.
Quanto tempo escovar?
A recomendação é escovar os dentes por pelo menos dois minutos e usar a quantidade adequada de creme dental fluoretado para cada faixa etária: crianças de até 3 anos devem usar uma quantidade bem pequena, equivalente a um grão de arroz; crianças de 3 a 7 anos, o tamanho de uma ervilha; e adultos, cerca de um centímetro de creme dental.
Depois, evite enxaguar excessivamente a boca. “A escovação mecânica é fundamental e não pode ser substituída. É ela que remove o biofilme dental, que tem papel central no desenvolvimento da cárie. O creme dental, por si só, não faz esse trabalho e o flúor atua como um aliado importante nesse processo”, ensina Fronza.
Doença bucal mais comum
A cárie é a doença bucal mais comum do mundo e, por isso, é considerada um problema de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela está entre as condições crônicas mais prevalentes e atinge cerca de 2,5 bilhões de pessoas, de todas as idades.
Além de dor e desconforto, pode causar dificuldade para mastigar, prejudicar a alimentação e gerar custos elevados com tratamentos.
“A cárie não é uma doença restrita à infância. Ela acompanha o indivíduo ao longo de toda a vida e tem impacto direto na qualidade de vida”, alerta a cirurgiã-dentista do Einstein.