Pancreatite é prevista em bula de canetas emagrecedoras – 10/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

A possibilidade de inflamação no pâncreas se tornou uma preocupação após o registro de seis mortes suspeitas de pessoas que usaram medicamentos agonistas do receptor GLP-1, chamados popularmente de canetas emagrecedoras, segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Na segunda-feira (9), a agência alertou para os riscos de pancreatite pelo uso dos medicamentos. Porém, desenvolver a inflamação é um efeito adverso grave listado como incomum nas bulas dos remédios .

O médico Alexandre Hohl, diretor da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) diz que o estudo Select, financiado pela Novo Nordisk, avaliou o risco de pancreatite comparando pacientes usando semaglutina e pacientes usando placebo e mostrou que o número de casos foi igual.

O vice-presidente da Abeso, Bruno Halpern, concorda e afirma que não há comprovação ou evidência de relação causal entre os agonistas de GLP-1 e pancreatite. O médico diz que perdas de peso rápidas aumentam o risco de cálculos na vesícula biliar, o que pode acontecer também no uso desses medicamentos e poderia ter uma relação indireta com o desenvolvimento de pancreatites raras.

As causas mais comuns para a doença estão a pedra na vesícula, além de consumo de álcool, ingestão de alguns medicamentos e altos níveis de triglicérides.

Além disso, os médicos alertam para o aumento dos riscos em caso de uso indiscriminado e sem acompanhamento médico. Hohl diz que, sem uma avaliação por um profissional, não há o controle das doses ou de alguma condição prévia e contraindicações, como pancreatite de repetição, litíase [cálculo] ou hiperglicemia; Halpern afirma que quando o produto é de origem desconhecida, há também a possibilidade de adulteração ou presença de outras substâncias, o que amplia a chance de eventos imprevisíveis.

“Ainda assim, trata-se de uma cadeia indireta e pouco frequente, o que ajuda a explicar por que, apesar do grande volume de uso ao longo de duas décadas, a associação direta com pancreatite segue sem confirmação”, afirma.

Ele explica que efeitos adversos são previstos em bula em todos os medicamentos e que, em casos de efeitos graves, a conduta é procurar atendimento de emergência. Os sinais e sintomas de pancreatite são dor abdominal, que pode irradiar para o dorso, e que podem ser acompanhados de náusea após refeições gordurosas.

O vice-presidente da Abeso diz que não há recomendação formal para a realização de ultrassom de rotina antes do início do tratamento apenas para rastrear cálculos, ou fazer exames para medir amilase e lipase, já que os estudos mostram que o aumento das enzimas não estão associados a maior risco de pancreatite.

Notificações de suspeitas

De acordo com os dados fornecidos pela Anvisa entre 1º de janeiro de 2020 e 7 de dezembro de 2025, foram 145 notificações de eventos adversos relacionados às canetas emagrecedoras. Somado às informações de pesquisas clínicas, o número sobe para 225. Até o momento, seis mortes suspeitas de pancreatite associada ao uso desses medicamentos foram notificadas.

Os registros mostram um crescimento contínuo:

  • 2020: 1 caso
  • 2021: 21 casos
  • 2022: 23 casos
  • 2023: 27 casos
  • 2024: 28 casos.
  • 2025: 45 registros, representando o maior volume anual de notificações até então

A Anvisa esclarece que a notificação de um evento adverso não significa uma comprovação de relação direta com o medicamento, servindo como uma ferramenta de vigilância para acompanhar a segurança dos produtos em uso.

O alerta abrange os principais princípios ativos dessa classe de medicamentos, como a dulaglutida (Trulicity), a liraglutida (Saxenda, Victoza, Lirux e Olire), a semaglutida (Ozempic, Wegovy, Povitztra e Extensior) e a tirzepatida (Mounjaro).

Halpern comenta que o risco de pancreatite é discutido há décadas em relação ao uso das canetas emagrecedoras e que, com o crescimento do uso, os relatos também tendem a aparecer com mais frequência.

“Casos podem ser reportados à farmacovigilância como parte do monitoramento de segurança, o que é esperado e adequado. Quando se observa a proporção entre casos relatados e o número total de usuários ao longo do tempo, trata-se de uma incidência muito baixa.”

A Eli Lilly do Brasil, fabricante do Mounjaro, afirmou em comunicado que o efeito é expresso em bula e que a inflamação do pâncreas (pancreatite aguda) é uma reação adversa incomum. Além disso, a farmacêutica aconselha os pacientes a conversarem com seu médico para obter mais informações sobre os sintomas de pancreatite e interromper o tratamento em caso de suspeita da doença durante o tratamento com Mounjaro.

A Novo Nordisk afirmou em nota que existem “vários fatores de risco estão implicados no desenvolvimento de pancreatite, incluindo diabetes e obesidade. Os pacientes devem ser informados sobre os sintomas característicos e orientados a descontinuar o tratamento com semaglutida/liraglutida caso haja suspeita de pancreatite”.

Autoria: FLSP

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