O que não perguntar e o que responder na ceia de Natal – 21/12/2025 – Equilíbrio

É chegado o período de festas de fim de ano, quando pessoas que não se veem com muita frequência colocam as melhores roupas e se reúnem em cozinhas, salas de estar e varandas para as ceias de Natal de e Ano Novo.

São encontros entre familiares e amigos com rotinas, valores, opiniões políticas e momentos de vida distintos —um cenário propício para choques de ideias, comentários invasivos ou conversas que rapidamente saem do controle.

“Existe uma expectativa de que esse momento seja feliz, quando nem sempre há condições para isso”, afirma Belinda Mandelbaum, psicanalista e professora titular no Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Segundo ela, diferentes famílias têm reuniões harmoniosas nessa época do ano, mas encontros entre pessoas com quem há pouco convívio ou conflitos antigos podem criar um ambiente de tensão.

Além disso, no final do ano, a maioria das pessoas costuma fazer um balanço pessoal, diz a psicóloga da família Manuela Moura, professora do Cefac Bahia (Centro de Estudos da Família da Bahia), o que pode aumentar a vulnerabilidade emocional dos participantes dos encontros.

Pessoas que avaliam não ter alcançado metas importantes ao longo do ano, diz Moura, tendem a se sentir mais sensíveis, o que pode tornar comentários externos mais difíceis de lidar, especialmente quando envolvem aspectos íntimos da vida.

Para te ajudar a lidar com esse contexto, a Folha ouviu especialistas que dão dicas sobre como abordar conhecidos nas festividades e como responder a inconveniências para que as ceias sejam o mais harmoniosas possível.

Saiba ler a tensão na sala

Para o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira, psicoterapeuta com ênfase no comportamento e desenvolvimento humano, muitos comentários considerados inadequados não surgem necessariamente com a intenção de ofender. “Às vezes, a pessoa fala porque precisa falar alguma coisa”, afirma. Em outros casos, segundo ele, falta sensibilidade para perceber que o comentário ultrapassa um limite.

Para Mandelbaum, o reencontro com familiares com quem há pouco convívio pode gerar estranhamento e até choque. “De repente, você tem que se congregar em um momento de celebração e intimidade familiar com pessoas que às vezes você raramente vê”, afirma. Esse encontro, diz, exige um esforço de adaptação emocional que nem sempre é reconhecido, sobretudo quando envolve histórias, distanciamentos e conflitos não elaborados.

Em famílias, afirma, os conflitos fazem parte da vida cotidiana —tanto na convivência íntima quanto nos encontros com a família extensa.

Pereira explica ainda que comentários sobre aparência ou mudanças físicas costumam causar incômodo porque funcionam como uma invasão simbólica. “Falar do corpo da pessoa é como tocá-la. Você não permite que qualquer pessoa te toque, então também não permite qualquer comentário”, diz.

Na avaliação do psicólogo, esse tipo de fala tende a ser vivido como invasivo independentemente da intenção de quem fala, especialmente quando parte de alguém com quem não há intimidade. Para ele, isso ajuda a explicar por que comentários sobre peso, envelhecimento ou aparência costumam gerar reações emocionais intensas.

A psicóloga Moura afirma que perguntas e comentários sobre temas sensíveis deveriam ser evitados quando já se sabe que causam desconforto. “Se você é familiar e sabe que um assunto é delicado, para que falar sobre ele?”, questiona.

“Se sua prima se incomoda com o peso, para que perguntar se ela está mais magra? Se sua tia se incomoda por estar solteira, para que perguntar se arrumou namorado? Se seu primo sofre por estar desempregado, para que perguntar se ele conseguiu emprego?”, diz a psicóloga. Segundo a especialista, o ideal é esperar a pessoa falar primeiro.

Mandelbaum reforça que palavras podem ser vividas como formas de violência, mesmo quando não há agressão física. “As palavras podem ser acolhedoras, mas também podem ser ofensivas ou humilhantes”.

A psicóloga afirma ainda que o respeito às diferenças e a percepção dos limites do outro são fundamentais para que as conversas aconteçam sem gerar sofrimento. “Se há como ponto de partida o respeito mútuo, tudo pode ser conversado”, diz. “A gente tem essa sensibilidade para perceber se o outro está confortável ou não.”

Observar reações, silêncios e mudanças de humor, por exemplo, pode ajudar a identificar quando é melhor mudar de assunto ou encerrar uma conversa.

Segundo ela, temas sensíveis —como política, sexualidade ou escolhas pessoais— não precisam ser evitados, mas exigem escuta. “Eu posso ter uma posição diferente da sua, mas posso te respeitar, posso te ouvir, e você pode me ouvir”.

Como responder a comentários invasivos

Quando o cuidado falha, especialistas explicam que há formas de responder sem ampliar o conflito.

Ao lidar com comentários inadequados, Pereira orienta que confrontos diretos nem sempre são a melhor saída. “Discutir ou atacar geralmente não vale a pena, porque só aumenta o problema”, afirma.

Segundo o psicólogo, respostas curtas e neutras tendem a encerrar o assunto com menos desgaste. “Quando você não potencializa o comentário, ele perde força”, diz. Para ele, frases breves ou até a escolha de não responder podem ser estratégias eficazes.

Mandelbaum pondera, no entanto, que há situações em que explicitar o incômodo pode ser importante. “Tem certas situações que a pessoa deve explicitar para o outro: ‘olha, não está legal o que você está falando, eu não estou gostando’, porque a gente pode dar um retorno para pessoa”.

A escolha entre silenciar ou se posicionar, segundo ela, deve considerar o contexto e a capacidade do interlocutor de escutar.

Para Moura, colocar limites de forma clara e respeitosa também é uma possibilidade. “Se você não quer falar de um assunto, não fale”, afirma. Segundo ela, estabelecer limites não significa criar conflito, mas proteger o próprio bem-estar.

Reconhecer limites e escolher como lidar com eles em um contexto emocionalmente sensível, dizem os especialistas, pode manter a harmonia nas festas de fim de ano.

Autoria: FLSP

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