O alcoolismo fez com que eu me acostumasse ao mal-estar. Quando estava na ativa, todos os dias, sem exceção, era uma dor de cabeça, um enjoo, uma vontade de sumir. A ressaca era brava e invariavelmente cotidiana. Quando parei de beber, experimentei uma sensação de bem-estar como não sentia havia muito tempo. Comecei a dormir bem, o sono passou a ser transformador. Não acordava mais assustada e com o coração batendo a mil, sem saber exatamente que dia era e o que eu tinha feito na véspera. Às vezes, se ia dormir com um mínimo grau de consciência, chegava a ter medo de fechar os olhos ou mesmo me deitar, já imaginando o horror que seria despertar.
Como minha abstinência me acompanha há alguns anos, não experimento mais isso. E justamente por dormir bem tinha me esquecido do que era uma noite de tormenta. Semana passada tive insônia. Não dormi nada. As horas passavam e eu ficava cada vez mais preocupada porque meu dia seguinte seria uma catástrofe. E não daria para justificar no trabalho: “faltei porque tive insônia”. Embora, pensando bem aqui, acho que seria justo.
Às 3h, mais ou menos, em meio ao silêncio só interrompido pelos mosquitos, decidi levantar e mudar de ambiente, quem sabe esse deslocamento me ajudaria. Fui pra sala e sentei no sofá.
Comecei a pensar na vida, em mim, na sequência dos dias… Com um pouco mais de 40 anos, já vejo o tempo passar mais rápido.
Pensei nas escolhas que fiz, nas que deixei de fazer, nos anos que vivi pela metade. Durante muito tempo, sobrevivi anestesiada. Agora, sóbria, sinto tudo com uma nitidez que às vezes assusta.
Como de costume, estava com meu celular na mão, um vício. Não fico muito tempo longe dele. Foi quando ouvi um apito anunciando a chegada de um email. O remetente era Maria, e o título preciso: minha irmã. Comecei a ler o longo relato da mulher que queria entrar em contato comigo para ver como eu poderia ajudar a salvar sua irmã, que estava no fundo do poço. Maria me disse que naquela madrugada, minutos antes de ela me escrever, a família havia decidido internar a irmã por um ano em uma clínica de reabilitação. Um ano!
Respirei fundo, fui buscar um copo d’água. Esse assunto me deixa completamente atordoada. Fui internada algumas vezes, mas todas por pouco tempo, de modo que eu não perdi totalmente o contato com o mundo externo.
Lembro quando minha mãe chegou a cogitar estender a duração da minha permanência na clínica, mas foi desencorajada pelos meus irmãos. Ninguém queria me ver internada por muito tempo, mas minha doença gritava tanto que quase tive que passar por isso. Não acredito nesses tratamentos que isolam a pessoa por um tempo muito longo, é preciso se curar na sociedade.
Fiquei com o relato na cabeça pelo resto da madrugada, fui cruzando com minhas próprias memórias sombrias. Voltei a pensar no tempo.
Olhei pela janela e vi a luz do dia chegando. Segui para meu trabalho cansada e pensativa, porém sóbria. E isso, para mim, é muito.
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