Sábio Walter Franco: “Tudo é uma questão de manter / A mente quieta / A espinha ereta / E o coração tranquilo”. Esta coluna vai para quem ainda tem espinha para manter ereta, longe de Tarcisio, Hugo, David, Alexandre, Claudio, Gilmar, Luiz & cia. Anda difícil aquietar mentes e tranquilizar corações em meio a tanto incêndio.
Quem ainda não perdeu o juízo nem a vergonha na cara saberá ligar os pontos.
A Enel pôs mais da metade das cidades da Grande São Paulo de joelhos —de novo. Repete-se o blecaute de 2024, mais uma vez desencadeado por ventos e tempestades e amplificado em seu impacto sobre a população pela incompetência da concessionária de energia elétrica. Aquecimento global e frigidez neoliberal.
Não foi só a Enel, nem só a área metropolitana. Na Mantiqueira, a Neoenergia Elektro mantinha sem luz por três dias, na sexta-feira, bairros inteiros de Santo Antônio do Pinhal. Nada mudou nem vai mudar se a maioria mantiver a cabeça baixa.
Jornais noticiam que este ano deve terminar como segundo ou terceiro mais quente no registro histórico. Não por coincidência, mas por omissão e desígnio, fará companhia a 2024 e 2023 no trio de recordistas do ranking de medidas da temperatura média da atmosfera.
Outra nova nada boa destaca o saldo amargo da COP30, reunião em Belém do Pará que pariu um rato, não um mapa do caminho para nos livrar dos combustíveis fósseis. Nem merece o nome de cúpula do clima, pois a COP30 foi o evento com menos representantes de governo (7.500) dos últimos dez anos.
Não veio nenhuma delegação oficial dos EUA, segundo maior emissor de gases do efeito estufa, atrás da China —que nem mandou seu manda-chuva, Xi. A União Europeia, antes campeã do bom-mocismo verde, anda ocupada em se rearmar, agora que a maré baixa de Trump a revelou pelada perante um celerado Putin.
O Velho Mundo tinha uma meta audaz, parar de fabricar em 2035 veículos com motores a explosão, beberrões de gasolina e diesel que propelem o aquecimento global. Deu um cavalo-de-pau. Friedrich, que considera a gélida Alemanha melhor que a ebulição de Belém, aplaudiu a licença para manter a combustão de fósseis.
Por aqui, Luiz deu prazo de 60 dias para sua equipe rascunhar um esboço provisório tentativo de mapa do caminho para transição energética —sem combinar com os russos, americanos, chineses e indianos. Parece piada de mau gosto, depois de engolir o sapo de David na foz do Amazonas, ora na pista para deglutir uma boiada inteira com o PL da Devastação e a PEC do marco temporal.
Soa quase irônico ler no jornal britânico The Guardian que, na maior parte do mundo, o crescimento econômico já se desacoplou das emissões de CO2. Dez anos depois do Acordo de Paris, adotado na COP21, que sagrou a meta de conter em 1,5ºC o aquecimento desde a era pré-industrial, a Austrália começa a receber refugiados climáticos de Tuvalu, nação insular em vias de submergir na elevação do mar.
Por falar em inundação, chuvas torrenciais estão matando milhares na Ásia. E não só humanos: estima-se que enchentes já vitimaram 6% a 11% da população de nossos primos orangotangos em Sumatra.
Só restam algumas espinhas dorsais. Corações e mentes já arderam na pira do capital.
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