Mulheres trans relatam rejeição em revelação a parceiros – 29/01/2026 – Equilíbrio

Desde o início da novela “Três Graças“, da TV Globo, os telespectadores acompanham o que era para ser um amor tranquilo entre os personagens Viviane (Gabriela Loran) e Leonardo (Pedro Novaes). Mas bastou ela contar para o parceiro sobre sua transição de gênero para ouvir palavras transfóbicas e ser acusada de tê-lo enganado. Na ficção, o casal superou a briga e se reaproximou. Na vida real, no entanto, mulheres trans relatam sofrer rejeições após revelar sua história.

Segundo mulheres trans ouvidas pela reportagem, o consenso é que elas se tornaram “protagonistas do desejo privado”: são aceitas no escuro, mas excluídas da vida pública. Defendem, assim, o direito à privacidade e à individualidade, sem a obrigação de “carregar um cartaz na testa” explicitando sua história.

Para a professora Guilhermina Pietra, 25, de Irajá, no Rio de Janeiro, tanto nos aplicativos de relacionamento quanto nos encontros presenciais, a revelação da identidade trans ergue um muro imediato.

“Você pode ter feito cirurgia de redesignação sexual, ser o que for, mas vai sofrer se abrir a boca e falar. O auge do nosso querer é não precisar contar. Eu evito pelo que pode acontecer. A gente nunca sabe a reação do outro”, afirma.

Por essa insegurança, a carioca questiona a exposição compulsória. “Como você anuncia isso na rua? Como você abre isso?” Para ela, se o encontro é casual, como um “beijinho no Carnaval”, não há por que dar explicações. “Eu não tenho que andar com uma bandeira pendurada”, afirma.

Para a psicóloga Fernanda Rutkoski, especialista no acolhimento ao público LGBTQIA+, revelar ou não a trajetória é uma decisão emocional guiada pela autoproteção e não um protocolo técnico. Afinal, a identidade de gênero faz parte da intimidade e o processo de transição não precisa ser um cartaz no presente.

“Muitas já viveram humilhações ou agressividade após a revelação. Não existe um momento certo universal, mas sim aquele em que a mulher se sente minimamente segura diante de uma possível reação”, afirma.



Muitas já viveram humilhações ou agressividade após a revelação. Não existe um momento certo universal, mas sim aquele em que a mulher se sente minimamente segura diante de uma possível reação


Essa base de segurança é o que a psicóloga Elisa Verduguez chama de fortalecimento individual. Ela, que atuou por três décadas no acompanhamento de pessoas trans no ambulatório de endocrinologia e de transgeneridade do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), aponta que, embora os casos de transfobia atropelem o relacionamento afetivo, é possível somar vitórias. Mas isso depende da maturidade e da autonomia.

“As pessoas trans precisam estudar, serem profissionais ativos, resgatarem a autoconfiança e o autoamor. É preciso fortalecer vários pontos para suportar o ‘sim’ e o ‘não’. Só assim poderá se sustentar e lidar com as possíveis frustrações”, diz.

Verduguez defende que, embora o silêncio seja um direito na paquera, a construção de uma parceria transparente evita um sofrimento profundo. “Senão, sempre haverá desculpas para as situações.”

As duas especialistas concordam que a conexão real vai além do corpo biológico. “Ela respeita a sua constituição identitária e suas formas de expressão”, resume Elisa.

A professora Guilhermina, no entanto, relata que, quando o contato se aprofunda, muitas vezes a violência simbólica aparece. Ela conta que, após uma série de elogios e troca de mensagens por celular, um homem a bloqueou instantaneamente ao ver em seu Instagram que ela é uma mulher trans.

Guilhermina também viveu episódios em que homens, mesmo sabendo de sua transição, pediam para que ela permanecesse de roupa ou se recusaram a beijá-la na boca durante a relação sexual. “Eles não veem uma pessoa, eles veem um órgão.”

Já houve, porém, o contraponto a esse comportamento: ao levar um ficante para casa, o parceiro não viu problema ao descobrir ali que ela era trans, pois já havia tido um relacionamento parecido. “Mas também foi uma sorte encontrá-lo”, diz.

Lidia, 27, analista de qualidade, de João Pessoa (PB), e Nicole, 42, enfermeira, de Belo Horizonte (MG), são mulheres trans que, pela violência que já sofreram, preferem não relevar seus nomes verdadeiros.

Durante três meses, Lidia construiu uma conexão afetiva com um parceiro pela internet. Ambos demostravam o desejo de um encontro. Quando ela decidiu revelar sua identidade, a reação do pretendente foi idêntica à de Leonardo na novela. “Ele chorou muito. Falava que era uma ‘dor’. Eu fiquei complexada”, conta.

O desdobramento, segundo ela, foi a desumanização. “Depois ele voltou, mas querendo sexo. Você tem um vínculo mental e, de repente, a pessoa te categoriza como um objeto de curiosidade.”

Já Nicole conta que a química com um conhecido de longa data parecia perfeita até o momento da intimidade física. Ao perceber que seu corpo era diferente do que imaginava, ele não apenas parou o relacionamento, mas apagou-se da vida dela. “É o sumiço imediato. O homem desmonta porque não sabe lidar com o que sente”, explica.

Hoje, ela diz que enfrenta a negação. Um pretendente atual se recusa a acreditar que ela seja trans. “Ele diz que eu minto para afastá-lo, que já me beijou, conhece meu cheiro e que minha mão é macia. É uma negação que beira o absurdo, porque eles preferem acreditar que a realidade é uma mentira a admitir que se sentem atraídos por nós.”

Nicole mantém um “texto pronto” caso seja indagada sobre seu gênero: “É uma questão muito pessoal, minha intimidade, e eu só falo quando me sinto confortável. Se você não sabe lidar com isso, tudo bem, cada um segue o seu caminho.”

Autoria: FLSP

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