Uma leitora de Missouri (EUA) faz a seguinte pergunta: sei que as modelos sempre foram magras, mas me parece que estão ficando ainda mais magras. Elas claramente não são o público-alvo do Ozempic, então estou equivocada ou isso é verdade e, se for, o que está acontecendo?
A colunista do The New York Times Vanessa Friedman responde: você não está equivocada. Sentada nos recentes desfiles de alta-costura, e depois analisando fotos em busca de imagens de passarela para acompanhar as resenhas dos desfiles, tive o mesmo pensamento.
Os números confirmam isso. Durante a última temporada de prêt-à-porter (do francês “pronto para vestir”), de acordo com o relatório de inclusão de tamanhos da Vogue Business, de 9.038 looks em 198 desfiles femininos, 97,1% foram apresentados em modelos que vestiam tamanhos americanos de zero a quatro (geralmente 34 a 38 no Brasil). Menos de 1% das modelos se qualificavam como plus size, ou com curvas.
Houve um momento em que a moda parecia estar caminhando em direção à positividade corporal, em parte por causa da opinião pública. Em 2020, Paloma Elsesser, uma modelo plus size influente, esteve na capa da Vogue, e no ano seguinte tornou-se membro do VS Collective especificamente para ajudar a Victoria’s Secret a repensar seus tamanhos e imagem.
O conceito de modelos de tamanho médio decolou, e houve menos tokenismo de garotas plus size. Mas claramente esse momento acabou, por uma variedade de razões.
A reação contra o “wokeness” arrastou a inclusão de tamanhos em sua esteira. A moda, que está retrocedendo em todos os tipos de aspectos, incluindo sustentabilidade e igualdade de gênero, está igualmente revertendo à forma na passarela. Afinal, é mais fácil voltar ao status quo do que ser pioneiro na mudança.
Isso é especialmente verdadeiro para coleções de passarela, já que geralmente são compostas por peças de amostra, projetadas em um tamanho padrão (é mais eficiente e econômico). Variar os tamanhos na passarela requer mudar os moldes, e isso requer repensar o sistema, o que é complicado.
Além disso, a sabedoria convencional da indústria sustenta que as roupas ficam melhores em mulheres com formato de cabides. Não do tipo de seda acolchoado, do tipo de arame estreito.
Depois, há o fato de que a revolução dos medicamentos GLP-1 alterou o panorama visual. À medida que pessoas anteriormente maiores sob os olhos do público encolhem, também mudam nossas percepções. O que se qualifica como “magro” torna-se ainda mais magro —e aparentemente mais desejável.
Somando tudo isso, a atração gravitacional é em direção a uma forma humana cada vez menor, especialmente na passarela. É uma pena. Não porque a magreza seja ruim, mas porque não deveria ser a única opção. As pessoas ainda vêm em todos os tipos de formas e tamanhos. Ver a realidade da vida refletida nas passarelas, que se tornaram uma forma de entretenimento para todos, é na verdade mais atraente do que ver a vida reduzida a um tamanho que não pode servir para todos.
A realidade disso ficou clara quando, após décadas de racismo, a moda finalmente parou de tokenizar modelos negros e abraçou uma multiplicidade de cores de pele nas coleções de passarela, em vez de optar por um elenco de modelos 90% brancos. Bem, exceto pela Dolce & Gabbana, que inexplicavelmente usou um elenco totalmente branco em seu último desfile masculino.
O resultado foram desfiles que parecem exponencialmente mais ricos e relevantes do que eram antes, porque estão conectados mais claramente ao mundo em que as roupas que mostram são usadas.
A lição deveria ser quanto mais diversidade, melhor. Não apenas em raça, mas também em tamanho, idade e capacidade física. É do interesse de todos. Imagine ver uma passarela que incluísse não apenas tamanhos zero e 16, mas todos os intermediários, incluindo seis, oito e dez (40, 42 e 44 no Brasil).
E não apenas para mulheres e roupas femininas. Durante os recentes desfiles masculinos, os rapazes na passarela da Prada estavam tão esguios que Hanan Besovic, um comentarista de moda, anunciou em seu reel do Instagram: “Eu amo Prada. Mas meu único pensamento durante toda esta coleção é o quão magros estes modelos estão.”
“Foi tão difícil focar nas roupas”, ele continuou. Há uma lição aí se a moda se importar em aprendê-la.