Menopausa pode causar incontinência urinária e constipação – 13/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

Cerca de 30% a 50% das mulheres na menopausa podem apresentar incontinência urinária, segundo especialistas ouvidos pela Folha e estimativas de estudos internacionais. Alterações hormonais dessa fase também estão associadas a constipação intestinal, outra queixa frequente nos consultórios.

Apesar de serem comuns, esses problemas ainda são cercados de vergonha e muitas vezes não são mencionados nem mesmo em consultas médicas. Quando presentes, porém, as alterações urinárias e intestinais podem ter impacto significativo na qualidade de vida das mulheres na menopausa, fase já marcada por ondas de calor, insônia, alterações de humor e outras mudanças hormonais.

Muitas deixam de praticar atividade física, evitam beber líquidos antes de sair de casa e até se privam de relações sexuais ou de atividades sociais por medo de perder urina em público. No caso da constipação, sintomas como distensão abdominal, cólicas e desconforto também afetam o bem-estar e a autoestima.

Durante o climatério, período de transição entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva da mulher, que costuma ocorrer entre os 40 e os 65 anos e inclui a perimenopausa, a menopausa e a pós-menopausa, essas alterações urinárias e intestinais estão associadas à queda dos hormônios estrogênio e progesterona.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 na Cureus Journal of Medical Science, do mesmo grupo da revista Nature, mostrou que aproximadamente 63% das mulheres na pós-menopausa enfrentam perdas involuntárias de urina. Pesquisa publicada em 2025 no European Journal of Obstetrics and Gynecology and Reproductive Biology encontrou prevalência de 30,8% do problema entre mulheres na menopausa.

Um outro estudo apresentado pela The Menopause Society no ano passado aponta que sintomas digestivos são muito frequentes durante a transição para a menopausa.

Na pesquisa conduzida no Reino Unido com quase 600 mulheres entre 44 e 73 anos, 94% relataram algum problema gastrointestinal, sendo os mais comuns distensão abdominal (77%), constipação (54%), dor de estômago (50%) e refluxo ácido (49%). A maioria afirmou que os sintomas surgiram ou pioraram na perimenopausa ou na menopausa e mais da metade relatou impacto significativo na qualidade de vida.

Rogério Felizi, ginecologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que os hormônios femininos ajudam a manter a elasticidade e o funcionamento dos tecidos da região pélvica. Na menopausa, a queda dessas substâncias provoca a chamada síndrome geniturinária da menopausa, caracterizada por atrofia e ressecamento da região genital, o que pode comprometer o suporte da bexiga e favorecer episódios de perda urinária.

Ele explica que existe uma associação entre o número de gestações da mulher e a incontinência urinária, mas que mesmo pacientes que nunca tiveram filhos e outras levam uma vida mais saudável, com atividades físicas, por exemplo, podem apresentar perda de xixi.

Membro da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), a ginecologista Rita de Cássia Dardis afirma que a constipação intestinal também pode contribuir para episódios de incontinência urinária.

“A bexiga, a uretra e o reto ficam muito próximos dentro do assoalho pélvico, que é a musculatura que sustenta esses órgãos. Quando a mulher tem constipação crônica, o reto pode ficar distendido, aumentando a pressão dentro do abdome e comprimindo a bexiga. Isso pode alterar o esvaziamento da bexiga e favorecer perdas urinárias”, explica. Segundo ela, o esforço repetido para evacuar também sobrecarrega essa musculatura.

Dardis acrescenta que outros fatores comuns nessa fase da vida também podem agravar o problema, como o ganho de peso, especialmente na região abdominal, a tosse crônica e a prática de atividades físicas de alto impacto.

A constipação pode ser um problema prévio ao climatério, mas também pode surgir ou se intensificar nessa fase. Isso ocorre porque a mulher passa por mudanças metabólicas que também afetam o funcionamento do sistema gastrointestinal, explica Felizi.

“Quando somos jovens, o metabolismo é mais acelerado. Com o passar dos anos, é comum ocorrer uma desaceleração, e nas mulheres, durante a menopausa, essa alteração metabólica costuma ser mais significativa. Como consequência, o trânsito intestinal pode ficar mais lento e surgem queixas relacionadas à menor estimulação do intestino”, afirma.

Tratamento é simples e devolve qualidade de vida à mulher, dizem médicos

Os especialistas afirmam que falar abertamente sobre o tema é fundamental para reduzir o estigma e ampliar o acesso ao tratamento, que costuma começar por medidas conservadoras, com foco no fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico.

De acordo com a fisioterapeuta Patrícia Skrotzky, especialista em reabilitação do assoalho pélvico do Iamspe (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual), a fisioterapia pélvica é considerada a primeira linha de tratamento nesses casos.

“O trabalho é voltado para o reforço da musculatura que sustenta a bexiga, a uretra e o reto”, explica.

Na prática, a paciente passa por uma avaliação inicial e aprende exercícios de contração do assoalho pélvico, que vão sendo ajustados ao longo do acompanhamento. Segundo Skrotzky, muitas mulheres já apresentam melhora nas primeiras semanas, com redução da frequência das perdas urinárias e da necessidade de acordar à noite para urinar.

Outras medidas incluem mudanças de hábitos que podem ajudar a controlar os sintomas urinários, como perda de peso, redução do consumo de cafeína e treinamento vesical, em que a pessoa passa a urinar em horários programados, em vez de ir ao banheiro sempre que sente vontade, para aumentar gradualmente o intervalo entre as micções.

Em alguns casos, a reposição hormonal local com estrogênio em pomadas, diz Skrotzky, prescrita pelo médico, também pode ser indicada para melhorar a saúde dos tecidos da uretra e da vagina e reduzir sintomas urinários irritativos.

Quando as medidas conservadoras não são suficientes, outras abordagens podem ser consideradas. Skrotzky explica que medicamentos podem ser usados para reduzir a contração exagerada da bexiga e, em casos mais graves e raros, a cirurgia pode ser indicada para reposicionar estruturas do assoalho pélvico que perderam sustentação ao longo do tempo.

Já o tratamento da constipação nessa fase costuma começar por mudanças de hábitos, com foco na alimentação e no estilo de vida. Recomenda-se aumentar a ingestão de fibras, cerca de 20 a 30 gramas por dia, consumir mais líquidos e praticar atividade física regularmente, medidas que ajudam a estimular o trânsito intestinal.

Dardis destaca a importância da chamada reeducação evacuatória, que consiste em criar uma rotina para evacuar. “Existe um reflexo intestinal que costuma ocorrer após as refeições, especialmente depois do café da manhã. Muitas mulheres ignoram esse sinal por causa da rotina corrida, mas respeitar esse reflexo ajuda a regular o intestino”, explica.

Autoria: FLSP

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