Jovem com doença rara passa em medicina em 3 universidades – 01/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

O paraense Ítalo Cantanhede, 17, estudante do Colégio Militar de Belém, no Pará, decidiu no ensino fundamental que seria médico no futuro.

A certeza da escolha se fortaleceu em no ano passado, quando iniciou um tratamento contra anemia aplásica medular severa —doença rara e grave que acomete 2,4 para cada 1 milhão de pessoas no Brasil. O tratamento foi realizado na BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, que é referência no cuidado de pacientes com essa condição.

A doença é caracterizada pela falência da medula óssea na produção de células sanguíneas (glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas).

“Quando fiquei doente e tive mais contato com esse ambiente, tive ainda mais certeza de que era isso que eu queria, porque vi os médicos atuando e me deu gosto pela profissão”, diz o jovem.

O diagnóstico foi informado a Ítalo e a seus familiares no dia 23 maio de 2025. Na época, aos 16 anos, ele cursava o último ano do ensino médio e se preparava para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Ítalo sonhava com o curso de medicina em uma universidade pública, de preferência na Uepa (Universidade do Estado do Pará).

“Foi um choque grande. Tive que sair da minha rotina de estudos e estava muito focado. Mas tudo que Deus faz é bom. A gente tenta aceitar e procurar a melhor forma de agir e resolver os problemas.”

Os sintomas da doença apareceram em uma semana. Como atleta de vôlei pelo colégio, Ítalo sentiu queda expressiva no rendimento dos treinos. Além do cansaço extremo, uma taquicardia se apresentava durante os jogos. Ao sentir-se mal enquanto estudava em casa, numa sexta-feira, foi levado ao Hospital Porto Dias, em Belém.

Os exames de sangue apontaram uma anemia grave e a necessidade de internação na UTI. O diagnóstico de anemia aplásica medular severa foi revelado após avaliação mais completa.

O jovem passou 40 dias na UTI. No período, tentou tratamento contra a doença e lutou contra infecções.

Ainda sem solução, Ítalo passou em consulta com uma hematologista no Hospital Saúde da Mulher, no mesmo estado. Para a médica, a única solução era o transplante de medula óssea.

Os pais iniciaram uma pesquisa sobre anemia aplásica medular severa. A família fez exame de compatibilidade de medula óssea. Ísis, 6, irmã de Ítalo, era 100% compatível.

“Em Belém, é realizado transplante de medula óssea, mas lá trabalham mais com adultos e não possuem tanta experiência com crianças. Fomos para a internet pesquisar até que chegamos ao Beneficência Portuguesa, em São Paulo”, conta a administradora Lorena Cantanhede, 38, mãe do jovem. Com 1.500 transplantes de medula óssea desde 2016, o local é centro de referência nesses procedimentos.

Ítalo mudou-se para São Paulo. Na quarta-feira (25), a reportagem conversou com o rapaz e a mãe no quarto em que está internado na BP.

Antes do transplante, o jovem foi submetido à quimioterapia num processo chamado condicionamento. O objetivo é destruir as células doentes e abrir espaço na medula para as novas.

Ao longo do tratamento, Ítalo dedicou-se aos estudos. Finalizou o terceiro ano do ensino médio com boas notas e preparou-se para o Enem.

“O tempo de estudo foi bem irregular, porque as transfusões sanguíneas faziam com que eu dormisse o dia todo. Estudava quando podia. Geralmente de manhã eu conseguia estudar um pouco, final da tarde também, mas não conseguia manter uma rotina certa”, afirma Ítalo.

Após autorização judicial que permitiu a realização da prova em São Paulo, em dezembro de 2025, Ítalo realizou a segunda aplicação do vestibular, destinada a candidatos que, por questões de saúde, necessitam de suporte para realizar o exame fora da sala de aula.

Durante a prova —que começou 13h30 e terminou 19h—, dentro do quarto do hospital, o jovem foi acompanhado por uma enfermeira da BP e três aplicadores do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Ítalo sentiu-se disposto durante o exame.

“Falei, pronto, meu filho, você já fez o que queria, que era a prova do Enem. Agora o que vier, está tudo bem. Agora vamos focar no tratamento e na cura”, comenta a mãe.

Com o desempenho no Enem, Ítalo conseguiu aprovação na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), UFPA (Universidade Federal do Pará) e na Uepa, onde iniciará o curso no segundo semestre de 2026.

O transplante foi um sucesso. Ísis, sua irmã, foi a doadora. A menina se recuperou antes do previsto. Ítalo está curado da anemia aplásica medular severa, segundo o onco-hematologista pediátrico Victor Gottardello Zecchin, que cuidou do adolescente no BP. Ele segue internado para se recuperar de infecções causadas pelo citomegalovírus —quadro que já era esperado.

“Quando voltar para casa, quero abraçar meu pai e minha irmã, comemorar com a família essa aprovação e a minha vitória contra essa doença. E comer as comidas do Pará, que eu estou com muita saudade”, diz Ítalo.

Como ser um doador de medula

De acordo com o Redome (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), o Brasil é o terceiro país com maior número de doadores. Cerca de 6 milhões de pessoas estão cadastradas.

O procedimento exige idade entre 18 e 35 anos e boas condições de saúde. Para o cadastro, é necessário ir ao hemocentro mais próximo e apresentar documento oficial com foto. Veja o passo a passo e onde encontrar um hemocentrol no site redome.inca.gov.br.

No hemocentro, o voluntário vai fazer um exame de compatibilidade genética (HLA). Se for compatível com um paciente, será convocado para avaliação complementar e orientado. Na maioria dos casos, a coleta de medula óssea é feita em ambulatório e não envolve cirurgia.

Autoria: FLSP

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