Idosos usam IA para criar imagens rejuvenecidas – 21/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

Aos 75 anos, ela sai correndo e, em um pulo só, monta em um cavalo. A mesma coisa para subir em uma moto. Nenhuma dificuldade também para embarcar sozinha em um helicóptero: de sobretudo de pele e sapato de salto alto, caminha até a aeronave, com uma taça de vinho em uma das mãos; com a outra, se apoia na porta, dá um salto e faz uma pirueta para já cair sentada no assento do piloto.

Parece mágica, e é. Todas essas cenas foram criadas pela aposentada Ana Tesser com inteligência artificial para figurinhas que ela compartilha com amigos por WhatsApp e posta nas redes sociais, principalmente no TikTok. Cada vez mais adeptos dos smartphones, idosos também começam a experimentar ferramentas de inteligência artificial.

Ana aprendeu a fazer as figurinhas com a irmã mais nova, de 65 anos, e agora até ensina as amigas. Graças à IA, já “realizou” o sonho de abraçar seu grande ídolo, o rei Roberto Carlos. Para o Natal, fez uma figurinha em que está ajoelhada ao lado de uma árvore enfeitada, com um vestido curtinho de Mamãe Noel, e botas brancas de salto e cano alto. “Viu que lindas as minhas pernas?”, pergunta, rindo, enquanto manda uma série de figurinhas por WhatsApp durante a entrevista. “Quem me dera eu tivesse essas pernocas!”, brinca.

São pernas jovens, assim como a pele lisinha, sem marcas, do rosto, das mãos, do pescoço. “Olha eu de rainha, que coisa linda”, diz, sobre uma figurinha em que está em um trono, com coroa, vestido, manto vermelho… e óculos escuros.

Psicóloga especializada em gerontologia, Jeane Silva afirma que as imagens rejuvenescidas estão se disseminando por redes sociais de idosos. Mais do que os filtros, que já eram comuns, agora acontece uma troca de corpos. “Tem sido muito frequente eu ver imagens de mulheres de 70, 80 anos com aparência de 20”, diz ela, que atua em projetos sociais com idosos na zona leste de São Paulo.

Para a psicóloga, é preciso aprofundar a reflexão sobre os novos comportamentos em torno da IA, na sociedade em geral e, em particular, entre os mais velhos. “O que me incomoda é a falta de instrução sobre essas ferramentas”, afirma. “A IA tem sido usada por muita gente para fazer terapia, e isso me preocupa especialmente no caso dos idosos, ainda mais daqueles que vivem sozinhos.”

Há, por outro lado, um debate sobre os potenciais benefícios da IA para os idosos, como a promoção da inclusão social e da autonomia (por exemplo, assistentes virtuais para a gestão financeira ou para a organização dos cuidados com a saúde). Como tudo na tecnologia, será preciso separar o joio do trigo.

Professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (Universidade de São Paulo), em São Carlos (interior de SP), Kamila Rios tem se dedicado a projetos de pesquisa e de cursos de extensão de tecnologia para idosos. Em parceria com Caroline Lira, sua aluna no doutorado, desenvolveu um curso de IA para idosos –a iniciativa recebeu menção honrosa em um dos principais prêmios acadêmicos da área de tecnologia da informação, o WebMedia Luiz Fernando.

O curso aborda o perigo de entregar dados pessoais para a IA, o funcionamento dessa tecnologia, o fato de que pode errar e que registra nossas informações e as utiliza de forma que nem sempre sabemos. Também enfatiza questões jurídicas, como o risco do uso indevido de imagem, da disseminação de notícias falsas e de se cometer crimes como o de calúnia, difamação ou injúria.

Kamila explica que boa parte dos internautas acaba utilizando essas ferramentas sem ter noção de que se trata de IA. Esse é um dado importante quando se analisam pesquisas sobre hábitos digitais. A TIC Domicílios de 2025 apontou que, dentre os internautas brasileiros com 60 anos ou mais, 6% utilizam IA. Como muita gente usa IA sem saber que é IA, esse número tende a ser maior.

Dentre os 60+ que declararam não utilizar a IA, os motivos apontados foram a falta de habilidade para usar esse tipo de ferramenta (72%), preocupações com segurança ou privacidade (68%), falta de conhecimento da existência desse tipo de ferramenta (66%) e falta de interesse ou necessidade (65%).

Kamila diz que a utilização da IA deve crescer à medida que essas ferramentas forem se tornando mais simples e começarem a ser incluídas nos pacotes de dados das operadoras de celular.

Além disso, na opinião da professora, as pessoas mais velhas devem se tornar mais adeptas dos chatbots (que simulam conversas humanas, como o ChatGPT) quando esses programas ficarem mais “humanizados, utilizando avatares”. Assim, as terapias com IA podem se tornar mais atraentes para os idosos.

Kamila avalia que é preciso olhar para esse fenômeno com atenção. “É um momento em que as pessoas podem estar mais vulneráveis, com medo do envelhecimento, da morte”, analisa. “A IA pode ‘enganar’ os medos, as frustrações, nos dar a sensação de voltar ao passado, mas isso funciona só por um tempo, porque não se pode camuflar a realidade por um longo período”, diz.



A IA pode ‘enganar’ os medos, as frustrações, nos dar a sensação de voltar ao passado, mas isso funciona só por um tempo, porque não se pode camuflar a realidade por um longo período

Ela pondera que “toda a sociedade, não só os idosos, precisa pensar sobre as nossas não aceitações como seres humanos, sobretudo sobre a finitude”.

“As não aceitações em relação ao corpo, a até onde podemos ir. Essa camuflagem certamente terá um custo, e precisamos de mais estudos sobre o efeito de tudo isso para a saúde mental”, explica.

Ana diz que gosta de “brincar como uma criança” criando figurinhas com IA. Uma de suas brincadeiras favoritas é enfeitar com IA os vestidos de cigana que usa na vida real –seu apelido é Cigana Tesser. “O dia vai passando e não penso em coisa ruim. Eu me sinto rejuvenescida, mas também posto foto sem IA, só com um filtrozinho, ou com a cara lavada mesmo.”

As imagens que cria com IA fazem sucesso nas redes e, algumas vezes, confundem seguidores. “Recebo os parabéns por alguma coisa, e tenho que explicar que não é de verdade”, conta Ana. “Mas também publico imagens reais. Essa em que eu estou no touro mecânico é verdade, viu!?”, diz, sobre uma das figurinhas que encaminhou à reportagem por WhatsApp.

Um de seus cinco filhos, Cláudio, 54, que acompanhava a conversa, disse que se preocupa. “Não é só a minha mãe, todo mundo está viciado em celular. E é uma porta aberta para os nossos dados, para a nossa privacidade.” Por outro lado, ele acredita que essa presença digital pode ser “um bom sinal, de que ela está ativa”.

Ana participa de várias atividades presenciais, como ginástica, coral, dança e de um grupo de poesia, o Sarau 60+, organizado por Jeane Silva. Frequenta o NCI (Núcleo de Convivência do Idoso) de São Miguel Paulista (zona leste de São Paulo), onde recebe instruções sobre a tecnologia.

Autoria: FLSP

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