Não é só corrida, mas também não é crossfit. É assim que o hyrox vem conquistando os brasileiros, ao priorizar movimentos mais simples e ser considerado por especialistas uma modalidade mais acessível, tanto para iniciantes quanto para quem já treina há mais tempo.
Na prática, a competição combina 8 km de corrida com estações de exercícios funcionais ao longo do percurso. Entre os desafios estão os wall balls (arremesso de bolas pesadas na parede) e o sandbag lunges, com passadas carregando saco de areia nos ombros, intercaladas a cada um km de corrida.
O hyrox foi criado em 2017 pelos alemães Christian Toetzke, organizador de competições de fitness, e Moritz Fürste, campeão olímpico de hóquei. A modalidade se consolidou rapidamente, com provas em mais de 11 países, e agora também ganha espaço no Brasil.
Segundo o Google Trends, as buscas por hyrox atingiram, neste ano, o maior nível desde que o termo começou a ganhar relevância por aqui, em meados de 2024. No último ano, as pesquisas pelo tema quadruplicaram.
Na esteira do interesse, surgem clubes especializados, como a Bruk Moema, em São Paulo, uma das primeiras a apostar nesse tipo de treino na capital. Também crescem as competições mundiais realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
À primeira vista, a prática pode lembrar o crossfit, por envolver exercícios de alta intensidade, mas há diferenças. O coach Diogo Sawaya, que atua em academias que oferecem treinos de hyrox, explica que o crossfit exige levantamento de peso, movimentos de ginástica e subida na corda. “Tudo isso demanda mais técnica e, consequentemente, mais tempo para a pessoa se desenvolver”, diz.
Já o hyrox prioriza movimentos funcionais mais simples, que podem ser executados por pessoas com diferentes níveis de condicionamento. Ainda assim, exige preparo de quem quer competir.
O engenheiro Enzo Furumoto, 25, por exemplo, começou a praticar hyrox após um período no crossfit e já obteve bons resultados: conquistou o terceiro lugar na categoria Open (16 a 24 anos) em um campeonato mundial no Rio.
Ele afirma que escolheu a modalidade por buscar exercícios funcionais que considera mais seguros, com menos chances de se machucar do que no levantamento de peso comum no crossfit.
“Não é fácil, principalmente a corrida. Quando você começa a correr com frequência sem fortalecer, acaba se lesionando com muita facilidade. Foi o que aconteceu comigo quando comecei no hyrox, porque eu não estava fortalecendo direito”, afirma Enzo.
Para corrigir isso, ele contratou uma assessoria de corrida, que monta uma planilha com treinos específicos. Além disso, incluiu musculação na rotina para reforçar a musculatura e reduzir o risco de lesões.
Além disso, o hyrox contribui para o condicionamento cardiorrespiratório e o condicionamento físico geral, já que combina resistência e força ao longo de toda a prova, afirma Sawaya. Esse componente foi um dos fatores que atraíram Manuela Tigre, 33, que também vem do crossfit e viu a modalidade como mais acessível por não exigir técnicas tão complexas.
Agora, Enzo e Manuela se preparam juntos para o próximo campeonato mundial, previsto para abril, na capital paulista, na categoria de duplas mistas. Na preparação, Manuela também tem focado em evoluir na corrida.
Segundo ela, o desempenho na competição passa, sobretudo, por essa fase. “Você precisa correr um km, voltar e ainda conseguir render nas estações. Hoje entendo que tenho de fazer, no mínimo, um pace 5 por km e ainda performar nos exercícios”, diz.
A médica do esporte Karina Hatano, do Hospital Israelita Albert Einstein, pondera que, por se tratar de um esporte de alta intensidade, é fundamental estar apto fisicamente e ter liberação médica, especialmente no caso de pessoas com comorbidades, como hipertensão descontrolada, histórico de infarto ou asma.
Ela reconhece que a modalidade pode ser praticada por diferentes perfis, justamente por permitir adaptações nos exercícios, mas reforça a importância do acompanhamento de um profissional de educação física para garantir a execução correta dos movimentos e reduzir o risco de lesões.
Hatano também chama atenção para sinais de alerta após os treinos. Segundo ela, a dor muscular tardia é comum e costuma durar de um a dois dias, com melhora progressiva. No entanto, se a dor se torna incapacitante, interfere nas atividades diárias ou não apresenta melhora, pode indicar que algo está errado.
Outros sinais preocupantes incluem tontura e escurecimento da visão durante ou após o exercício.
Para iniciantes, ela recomenda de duas a três vezes por semana, com sessões de 30 a 60 minutos, sempre respeitando os dias de descanso.
“O hyrox gera estímulos constantes. Para quem gosta, é um treino que não enjoa, porque dá para progredir sempre, aumentando a carga, o volume ou as repetições, o que tende a melhorar a adesão e os resultados”, afirma Hatano.