A menopausa é um período crucial na vida de uma mulher. Essa transição é frequentemente acompanhada por uma ampla gama de sintomas físicos e psicológicos, alguns dos quais podem ser debilitantes e afetar a vida cotidiana. A menopausa também tem sido associada a problemas cognitivos, como déficits de memória, atenção e linguagem.
Para mitigar os efeitos —incluindo ondas de calor, sintomas depressivos e problemas de sono— muitas recorrem à terapia de reposição hormonal (TRH). Na Inglaterra, estima-se que 15% das mulheres recebem prescrição de TRH. Na Europa, esse número é ainda maior —variando entre 18% na Espanha e 55% na França.
Mas há um entendimento limitado sobre os efeitos da menopausa e do uso subsequente da TRH no cérebro, na cognição e na saúde mental. Para abordar essa questão, analisamos dados de quase 125 mil mulheres do UK Biobank (um grande banco de dados que contém informações genéticas e de saúde de 500 mil pessoas).
Classificamos as participantes em três grupos: pré-menopausa, pós-menopausa e pós-menopausa com TRH. A idade média da menopausa foi de cerca de 49 anos. As que usaram TRH normalmente começaram o tratamento por volta da mesma idade.
Descobrimos que a menopausa estava associada a um sono pior, aumento dos problemas de saúde mental e até alterações no próprio cérebro.
As mulheres pós-menopáusicas eram mais propensas do que as pré-menopáusicas a relatar sintomas de ansiedade e depressão.
Os distúrbios do sono também eram mais comuns após a menopausa. As pós-menopáusicas relataram taxas mais altas de insônia, menor duração do sono e aumento da fadiga.
Análises de imagens cerebrais também revelaram reduções significativas no volume da massa cinzenta, um componente importante do sistema nervoso central, composto principalmente por células cerebrais. Essas reduções foram mais pronunciadas em regiões críticas para a aprendizagem e a memória (ou seja, o hipocampo e o córtex entorrinal) e áreas essenciais para a regulação emocional e a atenção (córtex cingulado anterior).
O hipocampo e o córtex entorrinal estão entre os primeiros afetados pela doença de Alzheimer.
As mudanças observadas no estudo podem sugerir que as alterações cerebrais relacionadas à menopausa podem contribuir para o aumento da vulnerabilidade à doença de Alzheimer. Isso pode ajudar a explicar por que é observada uma maior prevalência de demência em mulheres.
Também investigamos se o uso de TRH tinha algum efeito sobre os desfechos de saúde —não melhorou a redução da massa cinzenta do cérebro.
Descobrimos que as mulheres que usavam TRH apresentavam níveis mais elevados de ansiedade e depressão em comparação com as na pós-menopausa que nunca tinham usado. No entanto, análises adicionais indicaram que essas diferenças já estavam presentes. Isso sugere que problemas de saúde mental pré-existentes podem ter influenciado a decisão de começar a usar TRH, em vez de esses sintomas serem causados pela medicação em si.
Um benefício potencial do uso foi observado no desempenho cognitivo —particularmente na velocidade psicomotora. O abrandamento psicomotor é uma característica marcante do envelhecimento.
As mulheres na pós-menopausa que nunca tinham usado TRH apresentaram tempos de reação mais lentos em comparação com as na pré-menopausa e as na pós-menopausa que tinham usado. Isso indica que a TRH ajuda a retardar o declínio da velocidade psicomotora relacionado à menopausa.
TRH e menopausa
Ainda há muito que não sabemos sobre a TRH —e são necessárias mais evidências sobre seus benefícios e riscos. Alguns estudos relatam que as pessoas que tomam têm um aumento do risco de demência, enquanto outros sugerem uma diminuição do risco.
Também são necessárias mais pesquisas para compreender os efeitos e como as diferentes vias e dosagens afetam os sintomas da menopausa. Mas, de acordo com um estudo do UK Biobank com 538 mulheres, os efeitos não parecem diferir.
É importante ressaltar, no entanto, que é difícil determinar se as mulheres estão realmente recebendo uma dose eficaz. Uma em cada quatro que usavam a dose mais alta licenciada de TRH ainda apresentavam níveis baixos de estradiol (estrogênio) —cerca de 200 picomoles por litro. Mulheres mais velhas e usuárias de adesivos de TRH eram mais propensas a ter níveis mais baixos.
Os níveis plasmáticos ideais de estrogênio para aliviar os sintomas da menopausa estão entre 220 e 550 picomoles por litro. Isso significa que, para 25% das mulheres do estudo, a TRH não teria trazido o benefício ideal.
Há evidências que sugerem que hábitos de vida saudáveis podem mitigar essas alterações relacionadas à menopausa na saúde cerebral e melhorar a cognição e o bem-estar, reduzindo assim o risco de declínio cognitivo associado ao envelhecimento e à demência. Isso inclui exercícios regulares, participação em atividades cognitivamente desafiadoras (como aprender um novo idioma ou jogar xadrez), ter uma dieta nutritiva e equilibrada, dormir bem e ter fortes conexões sociais.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original