Há dois motivos para pararmos de discutir os planos de Robert F. Kennedy Jr. para reformular o sistema alimentar americano. Primeiro, é improvável que algo significativo seja aprovado pelo Congresso no atual clima político. Segundo, as mudanças propostas pelo secretário de Saúde não funcionariam de qualquer forma.
Evidências de outros países lançam sérias dúvidas sobre a capacidade de um governo de mudar os hábitos alimentares das pessoas. Muitos países tentaram alguma combinação de impostos, restrições à publicidade, regulamentações sobre ingredientes e exigências de embalagens, e há pouquíssimos casos de sucesso.
No entanto, ainda estamos discutindo tudo isso e muito mais. As questões iniciais em que Kennedy se concentrou —a remoção de corantes artificiais dos alimentos e a substituição de óleos vegetais por sebo bovino— não têm a menor chance de melhorar a saúde pública. Na verdade, podem até piorá-la, assim como a nova pirâmide alimentar invertida, na qual a carne bovina e a manteiga ocupam um lugar de destaque.
Medicamentos como Ozempic e Wegovy podem fazer o que as regulamentações não conseguem: mudar a natureza do nosso ambiente alimentar. Em uma sociedade livre, algo que altera a demanda tem muito mais probabilidade de sucesso do que algo que limita ou taxa a oferta.
Os benefícios dos GLP-1 para a saúde estão em todas as notícias. Se você prestou atenção, mesmo que superficialmente, sabe que os medicamentos parecem ser quase mágicos. Os ensaios clínicos mostram perda de peso de até 22% em 48 semanas, resultados comparáveis à cirurgia bariátrica de longo prazo e muito superiores a qualquer outra intervenção para perda de peso. Mas os medicamentos também se mostram promissores para outras condições, incluindo osteoartrite, demência e algumas doenças respiratórias.
Um estudo do medicamento GLP-1 semaglutida para doença renal foi interrompido precocemente, em 2023, porque o medicamento era muito eficaz. O mesmo mecanismo que silencia o “ruído alimentar” pode ajudar no abuso de álcool e outras substâncias.
Mas é a forma como esses medicamentos mudam os hábitos alimentares das pessoas que, a longo prazo, pode resolver o problema que nos trouxe até aqui: um ambiente alimentar que nos oferece comida saborosa e prática, feita para ser consumida em excesso, 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Há evidências de que as pessoas que usam esses medicamentos não apenas comem menos; elas comem melhor. Estudo recente sobre mudanças nos gastos com supermercado descobriu que, no geral, as despesas em famílias com pelo menos um membro que usa um GLP-1 diminuíram 5%, mas as maiores reduções foram nas categorias menos saudáveis. Salgadinhos e produtos de panificação foram os mais afetados.
Tanto pesquisas quanto relatos confirmam que os pacientes estão se afastando de alimentos ultraprocessados e fast food, substituindo-os por alimentos frescos e integrais. O que significa que os medicamentos estão fazendo algo que décadas de conselhos, inúmeras dietas e um exército de cientistas, acadêmicos, charlatães e oportunistas não conseguiram: mudar a forma como nos alimentamos.
Quando as pessoas começam a comer de forma diferente e a reduzir os gastos com supermercado, isso chama a atenção das grandes empresas alimentícias. Em recentes teleconferências sobre resultados financeiros, executivos da General Mills, J.M. Smucker e PepsiCo relataram queda nas vendas de salgadinhos, e fabricantes de alimentos preocupados com os consumidores que utilizam GLP-1 estão cada vez mais adotando a tática de se unir a eles com produtos projetados para atraí-los.
A Conagra, por exemplo, está rotulando alguns de seus produtos como “compatíveis com GLP-1”. A versão da Nestlé é a linha “Vital Pursuit”. Restaurantes também estão repensando seus cardápios e reduzindo as porções para atender aos clientes que utilizam esses medicamentos.
Até o momento, temos apenas alguns dados de pesquisas e recibos de supermercados e restaurantes, mas ainda é cedo para evidências concretas sobre mudanças em todo o setor. E, claro, os GLP-1 não são o único motivo para o declínio em algumas categorias de alimentos. Preocupações gerais com alimentos ultraprocessados ou com questões financeiras também são importantes. Mas todos com quem conversei ou li sobre esse assunto acreditam que os novos medicamentos estão afetando o que a indústria alimentícia está nos oferecendo.
Os pontos em comum entre as ofertas “compatíveis com GLP-1” são maior teor de proteína, mais fibras e porções menores. Embora os americanos geralmente não precisem de mais proteína, certamente poderíamos usar mais fibras. O tamanho das porções, porém, é o grande problema. Há muitos anos, Marion Nestle, indiscutivelmente a principal cientista de nutrição do nosso país, me disse que o aumento do tamanho das porções poderia, por si só, explicar nosso problema de obesidade. Uma mudança radical no tamanho das porções é uma das mudanças mais significativas que poderíamos fazer em nosso ambiente alimentar.
Em outubro, uma pesquisa da Gallup descobriu que 12% dos americanos relataram usar um GLP-1 para perda de peso. Mas isso é apenas o começo. Os preços caíram significativamente e continuarão a cair. O Costco vende o Wegovy por US$ 199 (cerca de R$ 1.000) por mês para doses iniciais e US$ 349 (cerca de R$ 1.800) por mês para doses maiores e contínuas.
De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), quase três quartos dos adultos americanos estão acima do peso ou obesos, e tudo indica que a maioria deles preferiria não estar. Quando os GLP-1s forem acessíveis e estiverem disponíveis, não é irracional pensar que metade de nós poderá se beneficiar deles.
Pense nisso. Metade dos americanos cortou gastos com comida não saudável e começou a comer menos no geral. As empresas alimentícias e os restaurantes, é claro, atenderão a essas necessidades com linhas de produtos modificadas e porções menores. O ambiente alimentar que nos ofereceu aqueles salgadinhos, aquela comida não saudável, aquelas porções enormes, terá que se adaptar a pessoas que querem menos. Pessoas que querem melhor.