Como identificar charlatanismo e pseudociência na medicina – 10/02/2026 – Equilíbrio

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Buscar um profissional de saúde é um processo de confiança. Você compartilha dores e dificuldades com o especialista e espera que ele te ofereça acolhimento e orientações eficazes para tratar uma doença ou mudar hábitos.

Há médicos, porém, que usam essa vulnerabilidade do paciente como uma oportunidade para ganhar dinheiro, vendendo tratamentos ineficazes e procedimentos sem embasamento científico.

Por isso, na edição de hoje, especialistas explicam como identificar discursos e práticas pseudocientíficas na medicina —e não gastar tempo, dinheiro ou energia com isso.

O charlatanismo não é um fenômeno novo. “Isso é antigo. Essa demanda da população por tratamentos milagrosos para curar doenças sempre existiu”, explica Carlos Eduardo Viterbo, médico ortopedista e divulgador científico.

O discurso, porém, evoluiu com o passar dos anos. Antes, feirantes vendiam ervas e óleos que eram capazes de curar todas as doenças. Hoje, profissionais nas redes sociais têm discursos sofisticados e usam jargões científicos para convencer o público.

Essas práticas inadequadas muitas vezes não decorrem de falta de formação, mas de má-fé deliberada, explica César Eduardo Fernandes, ginecologista obstetra e presidente da Associação Médica Brasileira (AMB). “O médico existe para servir ao paciente, e não para servir do paciente”, diz.

Entenda: o contrário do charlatanismo é a medicina baseada em evidências (MBE). Em resumo, essa abordagem busca usar os melhores dados científicos disponíveis para tomar decisões sobre o tratamento de cada paciente.

É o consenso científico que deriva de estudos robustos e replicáveis. Esses dados guiam diretrizes de sociedades internacionais e instituições de saúde.

↳ Você não verá uma diretriz do Ministério da Saúde, por exemplo, baseada em estudos feitos em culturas de células ou em ratos. Esse tipo de pesquisa tem importância científica, mas não pode ser usado para a saúde pública —e é o que alguns profissionais picaretas fazem.

Veja, então, alguns indícios de que você pode estar sendo enganado por um profissional de saúde:

1. Certezas excessivas e promessas de cura

A ciência médica é muito cautelosa e trabalha com possibilidades. Já o charlatão garante a cura para doenças crônicas ou afirma saber algo que toda a comunidade médica ignora.

“Ter muita certeza e falar de forma muito convicta de determinados temas que ainda são controversos ou de doenças que ainda não têm cura descrita são sinais de alerta”, afirma Viterbo.

Tome cuidado com promessas de corpo perfeito, desintoxicação ou juventude, por exemplo.

2. Tom alarmista

Um discurso que gera medo em relação a questões do dia a dia, como afirmar que eletrodomésticos, cosméticos, alimentos comuns, desodorantes ou panelas estão “intoxicando” o paciente.

Fique atento ao uso da inflamação como um coringa. Ao dizer que você “está inflamado” por causa do glúten ou da lactose, sem que você tenha uma intolerância diagnosticada, o médico usa sintomas de outros quadros, como o próprio cansaço, para vender uma cura.

3. Discurso antissistema

Profissionais que se colocam contra uma suposta conspiração de governos ou da indústria farmacêutica para esconder tratamentos ou que têm um discurso polarizado, que coloca a “medicina tradicional” contra a “medicina moderna”.

4. Linguagem inacessível

Uma das funções do médico é traduzir o conhecimento científico. Usar linguagem rebuscada, excessivamente técnica, não é um bom sinal. “Não existe charlatão que fala mal, que tenha dificuldade em vender seu peixe”, diz Fernandes.

O paciente precisa ser informado de maneira clara e compreensível para escolher um procedimento. Você precisa sair da consulta ciente do que aconteceu ali (e dos próximos passos do seu tratamento).

5. Excesso de exames

“Quem não entende muito de medicina se encanta, porque acha que está sendo melhor cuidado. Mas a literatura médica mostra que isso não é verdade”, explica Viterbo.

Solicitar listas imensas de exames aumenta a chance de variações estatísticas que serão usadas para justificar tratamentos (e riscos) desnecessários.

A matemática é cruel: estatisticamente, se você pede 100 exames, algum virá com alguma alteração, mesmo em pessoas saudáveis.

6. Uso de títulos inexistentes e termos populares

Certas áreas e expressões são frequentemente associadas a condutas sem comprovação científica. Veja dois exemplos:

  • Medicina integrativa/funcional/quântica: não são especialidades reconhecidas pelo CFM (Conselho Federal de Medicina). Muitas vezes servem como rótulos para práticas alternativas que o conselho já proibiu (como a ortomolecular).

  • Protocolos de desintoxicação: uso de soros, vitaminas injetáveis e dietas restritivas para “limpar” o organismo de toxinas inexistentes ou processadas naturalmente pelo fígado e rins.

O que fazer para evitar encontrar profissionais assim? Especialistas defendem que o paciente deve ser um agente ativo na verificação da competência do médico. Afinal, a credibilidade deve ser construída, assim como a confiança.

Verifique as credenciais

No Brasil, existem 55 especialidades reconhecidas pelo CFM (você pode vê-las aqui). Para ser dermatologista, por exemplo, um médico precisa ter o RQE (Registro de Qualificação de Especialista), obtido após realizar programas de residência ou provas de título.

Se o médico diz ser especialista, acesse o site do CFM e busque pelo nome para conferir se ele possui o registro.

Isso não é uma crítica ao profissional que não é especialista, apenas aos que se dizem sem ser. “Os médicos que estão na atenção básica, às vezes na UPA, na urgência dos prontos-socorros, a maior parte deles não tem especialidade. E eles são essenciais”, argumenta Viterbo.

Questione o profissional de saúde

Não tenha medo de perguntar ao médico: “onde o(a) senhor(a) fez sua formação e residência?” ou “quais foram os últimos cursos de atualização que o(a) senhor(a) fez?”. Um profissional ético terá prazer em responder e mostrar que sua prática é baseada em estudos e consensos, defende o presidente da AMB.

Busque informações em fontes seguras

Em caso de dúvida sobre um tratamento sugerido, consulte sociedades brasileiras de especialidades (ex: Sociedade Brasileira de Diabetes ou Sociedade Brasileira de Oftalmologia) ou órgãos oficiais (ex: Ministério da Saúde ou Organização Mundial da Saúde).

E, se preciso, busque uma segunda opinião. Marque consulta com outro médico, de um serviço público ou hospital de confiança, para tirar suas dúvidas.


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Autoria: FLSP

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