O mercado trilionário da indústria do bem-estar, que promete mais força, foco e energia, está em potente expansão, mas evidências científicas apontam que misturas com múltiplos ingredientes podem trazer mais riscos à saúde do que benefícios.
Hoje, vivemos na era da sociedade do desempenho. Tudo se trata de atingir a melhor performance possível em todos os aspectos da vida. Seja no trabalho, seja na vida pessoal. A área da saúde não é exceção.
A também conhecida como indústria do “wellness” é um dos setores mais em alta na economia global. Com um crescimento de 6,5% ao ano na última década e movimentando aproximadamente US$ 7 trilhões (R$ 36,4 trilhões) atualmente, projeções afirmam que o mercado movimentará quase US$ 10 trilhões (R$ 52 trilhões) até 2029.
Dentre as categorias que a compõem, uma das que mais procuradas é a que está dentro da esfera da nutrição. Essa indústria traz suplementos alimentares com alegações de múltiplos benefícios, como aumento de energia, saúde intestinal, imunidade e força muscular, além de perda de peso e melhora do sono.
Diversos produtos são comercializados com um ou mais desses propósitos, muito atrelados à prática de exercícios físicos. Dessa forma, a área está em franca expansão, capitalizada em especial por indivíduos da geração Z e os millennials.
Promete desempenho e entrega risco
Ligados à performance física, os ergogênicos são uma das classes de suplementos alimentares mais disseminadas. Os ergogênicos são substâncias que têm a capacidade de aumentar o desempenho na prática de exercícios físicos. Entre os mais consumidos estão a creatina, os nitratos (ou suco de beterraba), o bicarbonato de sódio, a β-alanina e a cafeína.
A partir de contextos e estratégias de treinos específicos, alguns desses suplementos demonstram eficácia para a melhora da performance dentro de certos grupos da população, como em atletas.
Como exemplo temos o caso da creatina para treinos de força e resistência e da cafeína para a melhora cognitiva. Porém, apesar de muitos usuários ingerirem, de forma simultânea, dois ou mais desses suplementos, as evidências atuais sugerem que isso não produz consistentemente um benefício significativo no desempenho.
Empresas que produzem suplementos ergogênicos exploram, em grande quantidade, misturas patenteadas compostas por diversos ingredientes de origem geralmente considerada natural.
Isso engloba desde substâncias isoladas, como a cafeína, até extratos de plantas que contém inúmeros compostos. No entanto, seu uso não está livre de riscos. Com isso, é evidente que, se não há benefício aparente com uso concomitante de suplementos com múltiplos ingredientes, aumentam-se as chances de eventos adversos através do seu consumo.
Algumas substâncias isoladas que fizeram parte da composição de suplementos foram banidas em muitos países por causa da sua alta toxicidade. Uma dessas substâncias é a 1,3-dimetilaminamina, ou DMAA. Esta já foi usada em cerca de 200 suplementos, com mais de US$ 100 milhões (R$ 520 milhões) em vendas na década passada.
Sobre os efeitos adversos, a DMAA é associada a vasoconstrição e elevação da pressão arterial, insuficiência renal, falência do fígado, e pode levar à morte. Essa substância, apesar de ser proibida, ainda pode ser encontrada à venda em lojas físicas ou virtuais.
Compostos presentes em algumas plantas, como alcaloides e saponinas, também podem ser responsáveis por causar intoxicação aos usuários. Apesar de ser usual associá-los a benefícios para a saúde humana, extratos de origem vegetal também podem trazer riscos. O consumo de extratos em suplementos pode causar eventos cardiotóxicos e neurotóxicos, agravados pela interação entre diversos ingredientes.
Os casos de toxicidade do fígado são os mais associados a suplementos que contêm extratos de plantas na sua composição. Uma revisão com mais de 200 estudos concluiu que 5% dos pacientes identificados com lesão hepática induzida por ervas necessitaram de um transplante de fígado e 2% dos casos foram fatais.
Mecanismos de toxicidade dos ergogênicos
Mesmo com os inúmeros casos relacionando o uso desses extratos a desordens no fígado, o mecanismo de lesão hepática por meio da intoxicação de ervas é, na maioria dos casos, desconhecido. Além disso, sabe-se pouco sobre as interações das substâncias ativas, como aquelas que agem no sistema nervoso, tal qual a cafeína e a DMAA, presentes nos suplementos ergogênicos.
O grupo do Laboratório de Mutagênese Ambiental (LabMut), do Departamento de Biofísica e Biometria, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicou dois trabalhos sobre a toxicidade desses produtos. O primeiro se propôs a analisar um suplemento composto por substâncias que vão atuar no sistema nervoso, como a cafeína e a N-acetil-L-tirosina, além de certos extratos vegetais.
Os resultados mostraram que esse suplemento foi capaz de causar danos no DNA, conhecidos como mutações, em células bacterianas e humanas, e induziu a morte de linhagens de células derivadas do fígado (células HepG2 e FC3H).
No segundo trabalho, além de diferentes extratos de plantas, ambos os suplementos analisados continham cafeína e a DMAA na composição. Os resultados mostraram um perfil muito parecido ao estudo anterior. Esses suplementos também causaram mutações e outros danos no núcleo das células, e diminuíram a viabilidade das células HepG2 e FC3H.
Um dos pontos que mais chamam a atenção é que os efeitos tóxicos parecem ser mais potentes quando na presença de um sistema com enzimas que metabolizam os suplementos alimentares.
Isso é especialmente importante no contexto de toxicidade hepática. O fígado é o principal órgão que metaboliza substâncias no nosso corpo. Sendo assim, o metabolismo ser essencial para a transformação das substâncias presentes nos suplementos em compostos mais reativos pode explicar os vários casos de lesões nesse órgão em usuários desses produtos.
Ilusão da pílula mágica
Suplementos podem ser prejudiciais quando tomados em excesso ou quando interagem com medicamentos. Por esse motivo, as consultas com profissionais de saúde são importantes na determinação do uso apropriado desses produtos. No entanto, pesquisas mostram que a maioria dos pacientes usa suplementos alimentares sem consultar esses profissionais.
Pelos poucos ganhos na performance para a maior parte dos indivíduos, junto às poucas evidências atestando a segurança dos suplementos ergogênicos, em especial sobre produtos com múltiplos ingredientes, o uso indiscriminado pode ser uma cilada para os consumidores.
Além disso, temos as dificuldades na padronização regulatória entre países e os desafios de fiscalização em territórios extensos. Na maioria dos países, os requisitos de segurança para suplementos alimentares são muito menos rigorosos do que para outros setores.
Muitos dos suplementos ergogênicos disponíveis no mercado possuem substâncias com a capacidade de induzir efeitos farmacológicos no nosso corpo. Ainda assim, não são necessários ensaios clínicos para estes produtos, diferente do que é exigido para medicamentos.
As agências regulatórias, como o FDA e a Anvisa sempre notificam as marcas de suplementos e agem na apreensão de produtos com irregularidades, ao mesmo tempo que tentam manter a população consciente acerca desse assunto.
Contudo, por conta da facilidade de entrada no mercado nacional e pela expansão do setor de wellness, é necessário revisitar os protocolos estabelecidos até o momento quanto à legislação de suplementos.
O ser humano é ávido por soluções rápidas e milagrosas. “Pílulas mágicas” e “gomas de mascar que dão um boost de energia” captam facilmente atenção do consumidor. Porém, em muitos casos, essa busca pela performance pode não ser tão garantida e segura.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.