O Brasil enfrenta, já na infância, um duplo desafio nutricional: o avanço acelerado do sobrepeso e da obesidade em parte das crianças, sobretudo em algumas regiões, e a persistência da baixa estatura em grupos vulneráveis, especialmente entre os indígenas.
A conclusão é de um estudo que analisou dados de 6,49 milhões de crianças de baixa renda, entre zero e nove anos, a partir do cruzamento de registros do CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais), do Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) e do Sinasc (Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos).
O trabalho, conduzido pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) e publicado na revista Jama Network Open, buscou avaliar, de forma padronizada, a distância entre as medidas de peso e altura das crianças brasileiras e o padrão internacional de crescimento da OMS (Organização Mundial da Saúde).
Esse padrão (escore Z) é uma medida estatística que indica a distância em relação à média da população de referência da OMS —composta por crianças que cresceram em condições consideradas ideais de saúde, nutrição e amamentação.
De acordo com o estudo, aos nove anos de idade o sobrepeso atinge 30% dos meninos e 28,2% das meninas, enquanto a obesidade chega a 14,1% entre meninos e 10,1% entre meninas. Em média, os indicadores de peso e IMC (Índice de Massa Corporal) permanecem acima do padrão de referência da OMS ao longo de toda a infância.
Segundo o autor principal do estudo, o epidemiologista Gustavo Velásquez, professor titular da Escola de Enfermagem da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisador associado ao Cidacs, ao analisar o peso em relação à estatura praticamente todos os estados brasileiros estão no limite superior ou acima da referência internacional.
“Isso não significa que seja normal. Significa que estamos avançando em um cenário que exige atenção das políticas públicas”, afirma. Ele observa que, em comparação com países vizinhos como Uruguai, Chile e Argentina, o Brasil também apresenta tendência de aumento do excesso de peso infantil.
Ao mesmo tempo, o estudo revela que o crescimento em estatura —indicador sensível às condições de vida, nutrição, saneamento e acesso a serviços de saúde— não se recupera de forma homogênea entre os grupos populacionais.
Em todas as regiões, há uma queda moderada da altura para a idade até os três anos. Mas, entre crianças indígenas, não há recuperação do crescimento linear nem mesmo aos nove anos. Nesse grupo, a média de altura permanece abaixo do esperado. Outros estudos já apontaram que a desnutrição como uma das principais causas.
“Sabemos, pela experiência epidemiológica, que quando a criança não recupera o crescimento até os dois ou três anos dificilmente vai compensar depois”, diz o pesquisador. Em outras populações latino-americanas estudadas anteriormente, como no Peru e em países do Caribe, o padrão de baixa estatura também se manteve ao longo da infância.
A desigualdade regional é marcante. Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram as maiores prevalências de obesidade aos nove anos, acima de 10%. Já Norte e Nordeste apresentam menores índices de excesso de peso, mas piores indicadores de estatura, especialmente em populações indígenas.
Entre meninas, a obesidade aos nove anos chega a 11,8% entre brancas, 9,1% entre pardas e 7,5% entre indígenas. Para os autores, o dado não indica menor vulnerabilidade indígena, mas a coexistência de outra forma de privação: o déficit de crescimento linear.
Velásquez explica que o recorte até os nove anos foi definido por razões operacionais, ligadas à disponibilidade e à integração das bases administrativas utilizadas. A equipe agora trabalha para ampliar a análise até os 19 anos.
A literatura internacional mostra que grande parte da obesidade futura se define muito cedo, ainda na gestação e nos primeiros anos de vida. Os primeiros mil dias —da concepção aos dois anos— são, portanto, uma janela de oportunidades.
“Há evidências de que distúrbios nutricionais nesse período podem produzir uma programação metabólica que aumenta o risco de obesidade e doenças crônicas na vida adulta”, afirma Velásquez.
Para enfrentar simultaneamente a baixa estatura e o excesso de peso, os autores defendem um conjunto integrado de ações. Entre elas estão o fortalecimento da atenção primária à saúde, a qualificação do pré-natal, a promoção do aleitamento materno, o acompanhamento sistemático de peso e altura na puericultura e a melhoria das condições de saneamento e segurança alimentar.
Velásquez também chama atenção para fatores estruturais, como o sistema alimentar e a forte presença de produtos ultraprocessados na dieta infantil. “São alimentos mais palatáveis, muitas vezes mais baratos e amplamente divulgados. Quando uma criança que já teve vulnerabilidades precoces encontra um ambiente de abundância de produtos de alto teor calórico, o risco de sobrepeso aumenta”, diz.
Ele destaca ainda a importância de políticas regulatórias, como a taxação de bebidas adoçadas e o controle da publicidade dirigida ao público infantil. “O crescimento e o peso na infância são marcadores das desigualdades sociais”, afirma.
Segundo o pesquisador, se não houver respostas coordenadas, envolvendo políticas públicas, serviços de saúde, ambiente familiar e regulação do sistema alimentar, essas diferenças tendem a se perpetuar ao longo da vida, ampliando o risco de doenças crônicas e prejuízos ao desenvolvimento.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.