Cerca de 38% de crianças e jovens brasileiros de 5 a 19 anos vivem atualmente com sobrepeso ou obesidade, estimam dados lançados nesta terça-feira (3) pela Federação Mundial de Obesidade. O relatório mostra que a situação brasileira é mais grave do que a média global, estimada em 20,7% para o ano de 2025.
O percentual brasileiro corresponde a um total de 17 milhões de crianças e adolescentes com IMC (Índice de Massa Corporal) considerado alto, dos quais cerca de 7 milhões com obesidade. Para essas faixas etárias, o sobrepeso é identificado quando o jovem está um nível acima da média esperada para sua idade e sexo, enquanto a obesidade é configurada a partir de dois níveis acima dessa média, de acordo com critérios da OMS (Organização Mundial de Saúde).
O documento projeta ainda que o Brasil deve chegar à marca de 50% de crianças e adolescentes com IMC elevado até 2040. A obesidade infantil deve saltar de 17% em 2025 para 24% em 2040, segundo as projeções.
Com as estimativas, o Brasil ocupa o 6º lugar entre os dez países com maior número absoluto de jovens com excesso de peso, atrás da China, da Índia, dos Estados Unidos, da Indonésia e do Paquistão, respectivamente, e o 7º lugar no número de pessoas da faixa etária com obesidade, estando atrás também do Egito.
O Brasil segue um cenário global de aumento de obesidade infantil e uma tendência que aponta que a maioria das crianças com obesidade agora mora em países de renda média, e não mais apenas em países ricos.
De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade 2026, mais de uma em cada cinco pessoas de 5 a 19 anos vive com excesso de peso, um aumento em relação aos 14,6% em 2010. Essa é a primeira vez na história que mais crianças no mundo viverão com obesidade do que com baixo peso.
A obesidade e o sobrepeso na infância aumentam o risco de doenças como diabetes, certos tipos de câncer, hipertensão e doenças cardiovasculares. Estima-se que, até 2040, 57,6 milhões de crianças apresentarão sinais precoces de doença cardiovascular, e 43,2 milhões apresentarão sinais de hipertensão.
O relatório —que cruza dados da OMS, Unicef e do Banco Mundial com base em projeções populacionais da ONU para calcular o total de pessoas afetadas—, baseia-se em revisões médicas para prever o surgimento precoce de doenças crônicas e avalia o desempenho das políticas públicas de 196 países. Como resultado, conclui que, sem ações urgentes, o aumento das taxas de obesidade colocará uma pressão crescente sobre os sistemas de saúde e sobre as gerações futuras.
Conforme Bruno Halpern, vice-presidente da Abeso (Associação Brasileira paa o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) e presidente eleito da Federação Mundial de Obesidade para o biênio 2027-2028, os números mostram que os sistemas alimentares mundiais favorecem o ganho de peso.
“Hoje, a obesidade é uma resposta fisiológica para um ambiente patológico, com muita opção de alimentos ultraprocessados e pouco estímulo ao exercício físico”, diz. “As estratégias de prevenção servem para tentar diminuir essa tendência e, quem sabe, mudar as curvas”.
Nesse cenário, entram a taxação de bebidas açucaradas e de alimentos ultraprocessados, redução de impostos sobre alimentos in natura via cesta básica e redução de propagandas infantis para a criança. Essas são das estratégias, que, segundo Halpern, devem ser aplicadas em conjunto.
O consumo de ultraprocessados e a insegurança alimentar, por sua vez, são tratados pelo especialista como faces da mesma moeda, uma vez que o menor valor desses produtos está associado a um maior consumo da população de menor renda. “O excesso de consumo de ultraprocessados é também uma forma de insegurança alimentar”.
Como soluções globais, além das políticas fiscais e restrições de marketing, o relatório sugere ainda o fortalecimento da proteção à amamentação, a garantia de uma alimentação escolar com metas nutricionais específicas contra a obesidade e a realização de pesquisas anuais de peso e altura para guiar políticas públicas.
O relatório aponta que o Brasil já aplica soluções como alimentação escolar, restrições de marketing, diretrizes de atividade física e proteção à amamentação, mas ainda tem lacunas no gerenciamento de peso e no monitoramento à aplicação de diretrizes que envolvem políticas fiscais e rotulagem.