Até que ponto vale ser vulnerável? – 15/01/2026 – Equilíbrio

Em 2010, a professora e pesquisadora norte-americana Brené Brown apresentou o TED The power of vulnerability, que se tornou um dos mais assistidos da história, chegando a quase 70 milhões de visualizações. Seu best-seller sobre o tema, A coragem de ser imperfeito, lançado em 2012 no exterior e em 2016 no Brasil, ajudou a consolidar o conceito de vulnerabilidade na cultura popular. Desde então —e com o debate sobre saúde mental ocupando cada vez mais espaço na mídia—, a frase “É preciso ser vulnerável” virou quase um mantra. Mas como evitar que o excesso de vulnerabilidade vire um fardo ou até um risco?

O lado bom

Do ponto de vista emocional, ser vulnerável significa permitir que outras pessoas enxerguem aspectos de nós que podem gerar insegurança ou vergonha. É o ato de expressar sentimentos e se mostrar de forma autêntica, por trás das máscaras, o que inevitavelmente envolve correr riscos e abrir mão do controle. Sob essa ótica, a vulnerabilidade está mais relacionada à coragem e à força emocional do que à fraqueza.

Após analisar centenas de entrevistas e grupos focais, Brené Brown concluiu que todas as pessoas com um forte sentimento de pertencimento e relações de qualidade compartilhavam algo em comum: elas se permitiam ser vulneráveis. Demonstrar nossas fragilidades —seja ao dizer “eu te amo” primeiro ou ao assumir erros— nos aproxima dos outros e ajuda a construir laços mais profundos, duradouros e saudáveis.

O lado difícil

Vivemos em uma sociedade que valoriza a performance e o sucesso. Isso nos afasta ainda mais da vulnerabilidade, já que o processo envolve expressar medos, dores e sentimentos muitas vezes vistos como “negativos”. Os estereótipos de gênero também têm grande influência nessa questão.

Culturalmente, as mulheres são incentivadas a expressar vulnerabilidade. Já os homens são ensinados desde muito cedo a evitar a exposição de suas fragilidades, principalmente por esse comportamento ser frequentemente associado à fraqueza ou à falta de masculinidade. Nos últimos anos, movimentos que questionam os papéis tradicionais de gênero têm contribuído para desconstruir a ideia de que os homens precisam ser sempre “fortes”, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Os riscos

Apesar de todos os benefícios que a vulnerabilidade pode oferecer, é bom ter cautela. Se expor em excesso pode acabar gerando arrependimentos. Também vale lembrar que nem todo mundo está preparado ou disposto a lidar com as nossas fragilidades. Há quem julgue ou veja aí uma chance de usar essas informações de forma manipuladora. “Ser vulnerável não significa derrubar todas as barreiras. Escolha com cuidado o que, quando e com quem compartilhar. O limite protege a intimidade e fortalece conexões”, diz Brené Brown em A coragem de ser imperfeito.

Antes de compartilhar algo mais íntimo ou que seja sensível para você, vale se perguntar: “Por que quero falar isso? Tenho preparo emocional para lidar com as possíveis reações?” Refletir sobre essas questões pode ajudar a equilibrar o desejo de conexão com a necessidade de preservar a própria intimidade.

No trabalho

Compartilhar fragilidades no trabalho pode ser ainda mais complexo. Nos últimos anos, profissionais de diferentes setores defenderam os benefícios de mostrar a sua “plena humanidade” no ambiente corporativo. E faz sentido: abrir-se nesse espaço pode gerar empatia e fortalecer conexões.

Por outro lado, praticar o “sincericídio” no escritório pode ser uma armadilha, especialmente se você não faz parte da cultura dominante da empresa ou na relação entre chefes e subordinados. Isso não significa que é preciso segurar a onda o tempo todo. A chave está em dosar a exposição com consciência e cuidado. Antes de se abrir, vale refletir: “Isso vai criar empatia ou me transformar em um peso?”

O equilíbrio

Se você costuma compartilhar mais informações sobre sua vida pessoal e emocional do que gostaria, é possível adotar algumas estratégias. Uma delas é identificar os gatilhos, como momentos de stress, ansiedade ou empolgação, que levam ao oversharing. Definir previamente quais informações considera privadas e praticar o hábito de ouvir mais do que falar são outras saídas.

Por outro lado, se demonstrar vulnerabilidade não é o seu forte, é prudente começar devagar. Colocar suas emoções no bloco de notas do celular ou em um diário pode ser um ótimo primeiro passo para organizar os pensamentos e entender o que realmente vale a pena compartilhar. Esse exercício pode ajudar você a se abrir de forma mais consciente, respeitando seus próprios limites.

Autoria: FLSP

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