Foi em Ubatuba que vi o pouso da Apollo 11 na Lua, em julho de 1969. Tinha 11 anos. A TV em branco e preto era só chuvisco, e mais imaginei do que enxerguei quando Neil Armstrong pisou na poeira e disse que seu pequeno passo era um salto gigante para a humanidade.
Tornei-me entusiasta da ciência e da tecnologia, mas também amante da natureza, em meio à mata atlântica. Queria ser astronauta, ou médico, depois biólogo, talvez poeta, acabei jornalista. Entrei na Folha em 1º de fevereiro de 1986, ano do cometa Halley e de duas explosões, no ônibus espacial Challenger e na usina nuclear soviética Tchernóbil.
Em 1988, o assassinato do seringueiro Chico Mendes espalhou manchetes pelo mundo sobre queimadas flagradas por satélite. Meses antes tinha visitado o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e o Museu Paraense Emilio Goeldi para conhecer a floresta. Vi a primeira sumaúma. Hoje, após 497 mil km2 de floresta amazônica derrubados, o fascínio segue intacto.
Em 1971, na missão Apollo-14, o piloto da cápsula que permaneceu em órbita do satélite, Stuart Roosa, levou na bagagem uma lata com centenas de sementes de árvores em sacos plásticos separados por espécies: pinheiro-americano, plátano, abeto-de-douglas, liquidâmbar e sequoia-vermelha.
Na volta, durante a descontaminação, a lata passou por uma câmara de vácuo que rompeu os sacos e espalhou sementes de forma explosiva. Nem assim elas perderam o poder de germinar. As sementes espaciais deram nascimento a várias mudas.
Das plantinhas nascidas, as “árvores da Lua”, outras mudas foram produzidas por estaqueamento (método reprodutivo a partir de estacas). Deram origem a milhares de novas plantas, doadas para plantio em 40 dos 50 estados dos EUA, em comemoração aos 200 anos da Independência, em 1976.
Como já contei aqui, três mudas desembarcaram no Brasil, duas sequoias e um liquidâmbar. Uma sequoia acabou em Santa Rosa (RS). Foi plantada em 13 de agosto de 1981 na 5ª Festa Nacional da Soja, em cerimônia com o último presidente na ditadura militar, general João Baptista Figueiredo
Quarenta e quatro anos se passaram desde o plantio da árvore lunar em Santa Rosa. A ditadura acabou em 1985, e o primeiro presidente civil, José Sarney, viu crescer a má fama do Brasil como destruidor de florestas e do clima.
Santa Rosa hoje se orgulha por ser uma cidade arborizada. Não deixa de ser ironia que uma árvore majestosa como a sequoia cresça tão mirrada na terra da soja, cultivo que proliferou pelo território nacional e hoje constitui um dos vetores de desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
A leguminosa da qual o Brasil é maior produtor mundial também aportou aqui como sementes importadas dos Estados Unidos. Foi 47 anos antes da viagem de Roosa, não numa lata, mas numa garrafa de vidro trazida em 1924 pelo pastor luterano Albert Lehenbauer, que doava as sementes para agricultores pobres do noroeste gaúcho.
Com a expansão da sojicultura pelo país, impulsionada pela tecnologia de plantio da Embrapa, Santa Rosa é hoje mais lembrada como berço da soja, não como a cidade que salvou uma sequoia lunar da solidão de imigrante, como narra o episódio desta semana do podcast Rádio Novelo Apresenta.
As sumaúmas que se cuidem.
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