Entidades negam relato de pelos de animais no fio do DIU – 16/12/2025 – Equilíbrio e Saúde

Um vídeo publicado nas redes sociais, no qual a ginecologista Letícia Eberlin relata ter encontrado pelos de animais presos ao fio de um DIU (dispositivo intrauterino) durante o atendimento de uma paciente, provocou questionamentos sobre a segurança do método contraceptivo. O registro chega a 3 milhões de visualizações no Instagram. Especialistas ouvidos pela Folha, porém, descartam a possibilidade.

A Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) afirma não haver registros científicos ou relatos clínicos semelhantes e reforça que o dispositivo é considerado seguro.

Segundo Ilza Maria Urbano Monteiro, presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Febrasgo, o relato não condiz com a experiência acumulada por serviços de referência no país. Ela atuou por 30 anos no setor de Planejamento Familiar do Hospital da Mulher da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), instituição que, segundo ela, realiza a colocação de DIU desde 1977.

“Hoje colocam cerca de 7.000 DIUs por ano. É uma experiência muito extensa, de décadas, e nunca vimos nada enrolado no fio do dispositivo. Não há registro disso”, afirma Monteiro.

De acordo com a especialista, o fio do DIU, também chamado de cauda, é curto —mede em geral entre 1,5 cm e 2 cm— e é fabricado em material monofilamentar liso, projetado para não reter partículas nem bactérias.

“O nome ‘cauda’ pode dar a impressão de algo longo, mas é um fio pequeno, que costuma ficar junto ao colo do útero, no fundo da vagina. Ele é feito para que nada fique preso ali”, diz.

Monteiro afirma que, ao longo de milhares de atendimentos e revisões ginecológicas, nunca foram observados objetos ou materiais enrolados ao fio do DIU —nem mesmo pelos pubianos, que seriam, em tese, mais prováveis de entrar em contato com o canal vaginal.

“Se isso fosse algo possível, já teríamos visto inúmeras vezes, especialmente no passado, quando a depilação íntima não era comum”, afirma.

Responsável pelo vídeo que originou a discussão, Eberlin diz à Folha que os pelos de gato estavam presos ao fio do DIU, e não ao dispositivo localizado dentro do útero.

A médica da Febrasgo afirma que a distinção não altera a avaliação técnica do caso. “O fio não tem características que permitam esse tipo de enroscamento. Não há ranhuras nem superfície propícia para formar um ‘novelo’ como o mostrado no vídeo”, afirma.

Segundo Eberlin, o achado ocorreu durante atendimento em consultório a uma paciente que se queixava de odor vaginal persistente. A mulher havia passado por consulta anterior e feito uso de medicação, sem melhora dos sintomas. Durante o exame ginecológico com espéculo, a médica diz ter identificado um material aderido ao fio do DIU e optado pela retirada do dispositivo para tratamento adequado do quadro.

“Ao retirar o DIU, vimos algo enrolado no fio. A própria paciente levantou a hipótese de ser pelo de gato, já que ela e o companheiro têm animais em casa”, afirma a ginecologista, que atua em consultório particular.

Segundo ela, a hipótese considerada foi a de que pelos presentes em roupas de cama poderiam, de forma gradual, aderir ao fio do DIU durante relações sexuais. A médica afirma já ter encontrado outros tipos de material, como fios de cabelo, presos ao fio do dispositivo em situações anteriores, embora ressalte que se trata de ocorrência incomum.

Eberlin explica que o canal vaginal não é um ambiente estéril e abriga naturalmente bactérias e fungos, o que, segundo ela, poderia favorecer a adesão de corpos estranhos ao fio do DIU. “O DIU fica dentro do útero, mas o fio se exterioriza pelo colo uterino e permanece no canal vaginal, onde há contato com secreções e microrganismos”, diz.

Para a ginecologista, a presença de material estranho no fio pode contribuir para alterações da microbiota vaginal, levando a quadros como vaginose bacteriana. Ela afirma ainda que o achado não deve ser interpretado como falha de higiene pessoal nem como motivo para evitar o uso do DIU.

“Não é algo comum e não justifica que mulheres deixem de usar o método. O DIU é seguro, inclusive eu uso DIU de cobre. A orientação é manter o acompanhamento ginecológico de rotina e procurar avaliação em caso de sintomas.”

A presidente da comissão da Febrasgo ressalta que achados isolados, como um fio de cabelo solto no canal vaginal, podem ocorrer ocasionalmente, mas tendem a ser eliminados naturalmente pelas secreções vaginais ou pela menstruação.

Para Monteiro, o principal risco do episódio é a disseminação de desinformação e medo em torno de um método amplamente utilizado. “O DIU já é cercado de mitos. Esse tipo de conteúdo pode gerar pânico desnecessário e fazer mulheres evitarem um método altamente eficaz e seguro.”

O ginecologista Jorge Elias Neto, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), também afirma não haver registros clínicos ou científicos que sustentem a possibilidade de pelos de animais ficarem presos ao fio do DIU.

Segundo ele, o fio do dispositivo é liso, curto e cortado em duas pontas independentes, o que dificultaria a adesão de qualquer material. “O fio do DIU não forma um arco; são duas pontas separadas e muito lisas. É muito difícil que algo grude ali”, afirma.

Neto diz ter discutido o caso com colegas da área e revisado a literatura médica sem encontrar relatos semelhantes.

O médico pondera que, em situações pontuais, pode haver resíduos transitórios no canal vaginal, como pequenos coágulos ao final da menstruação, que eventualmente podem aderir temporariamente ao fio do DIU. “Isso pode acontecer, mas costuma se desfazer com facilidade. Não permanece fixo”, diz.

Para ele, o que chama atenção no vídeo que circulou nas redes sociais é a aparência do material mostrado. “O DIU aparece limpo, e há um volume grande de pelos concentrado na ponta do fio, que não se solta mesmo com a manipulação. Isso é estranho do ponto de vista clínico”, afirma.

Segundo o especialista, a umidade natural do canal vaginal dificultaria a fixação prolongada de pelos ao fio do dispositivo. “A vagina é um ambiente úmido, com secreção constante. Materiais como pelos não tendem a se aderir dessa forma”, afirma

Autoria: FLSP

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