Tanta coisa aconteceu na semana passada… primeiro a tempestade, que acabou com a luz por quatro dias e também com a água por dois. Fiquei sem tomar banho e isso me lembrou a ativa. Deu muita aflição. Principalmente porque os dias estavam abafados. E a pia suja? Tem coisa mais desesperadora para uma alcoólatra em recuperação do que a casa desarrumada, especialmente a pia?
Bom, mas antes disso tudo eu fui à pré-estreia do filme “(Des)Controle”, um longa que fala sobre alcoolismo. Ele vai estrear em fevereiro e tem um elenco ótimo, além de tratar do assunto com amor e seriedade. A atriz Carolina Dieckmmann, protagonista bêbada, faz perfeitamente a rotina de uma alcoólatra na ativa, e também sem beber. Eu chorei e dei risada, ou seja, não é um filme pesado.
Saí do cinema mexida, mas de um jeito bom. Aquela sensação de ser vista sem julgamento, sabe? Tanta gente na sala rindo e se divertindo. É raro quando uma história sobre alcoolismo não cai no lugar comum da tragédia. Ali, não. Era humano, possível, próximo. Fiquei pensando em quantas versões minhas já existiram e em como todas elas, inclusive as piores, me trouxeram até aqui.
Talvez por isso a semana tenha sido tão extraordinária. Como se tudo e todos resolvessem testar minha capacidade de lidar com o desconforto. Sem luz, sem água. E eu ali, tendo que aceitar. Aceitar a sujeira, o suor, o escuro. Aceitar que nem tudo se resolve na hora e que, diferentemente de antes, eu não podia fugir para um copo. (Deus me livre!!)
Teve um momento específico em que sentei no chão da cozinha, olhei para a pia cheia de louça e respirei fundo. Antigamente, aquilo seria o gatilho perfeito. Hoje foi só… chato. Muito chato, mas possível. Lavei o que deu quando a água voltou, acendi velas à noite, tomei banho frio e segui. Percebi que a recuperação também mora nesses detalhes: banhos improvisados, casa bagunçada, calor insuportável, celular e computador com pouca bateria.
Quando tudo voltou ao normal, senti um alívio enorme, claro. Mas também um certo orgulho. Passei por mais uma tempestade. E isso ajuda a criar a tal casca-grossa para me proteger. Talvez seja isso que o filme, a semana e a pia suja tenham em comum: a lembrança constante de que o controle absoluto não existe. O que existe é escolha.
E ainda bem que hoje tenho o poder da escolha. Acordar, tomar café e decidir ver um filme. Não ficar largada na cama depois de uma noitada regada a muito álcool. No mesmo dia do cinema, antes da tempestade, encontrei um cara que eu gosto já há um tempinho. E ficamos juntos. Foi leve, sem nenhum stress. Muito diferente de quando eu conhecia rapazes e queria me aproximar. Sempre estragava bebendo horrores. Este, na verdade, foi em casa para me ver, e tomou um copo d’água. É meu amigo colorido. Falamos sobre tudo e isso é uma delícia.
Eu recomendo. Recomendo o filme “(Des)controle” que chega aos cinemas em fevereiro de 2026, recomendo tentar parar de beber para quem ainda vive se perdendo em grandes porres e não lembrando de quase nada do que fez. Recomendo também se permitir gostar de alguém e ser gostada. Tudo isso é novidade para mim. Sei que é bobo ficar falando tudo isso, mas é de coração, e o meu é super mole.
Emoções em sobriedade são boas demais.
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