Doze mulheres brasileiras que lideram diferentes áreas na tecnologia foram celebradas na noite desta segunda-feira (8) pelo Prêmio Todas, uma parceria da Folha com a consultoria Alandar.
A cerimônia, que acontece pela segunda vez consecutiva, homenageou a ministra Cármen Lúcia, segunda mulher a ocupar uma cadeira no STF (Supremo Tribunal Federal). Além dela, a corte teve apenas outras duas magistradas, Ellen Gracie e Rosa Weber, já aposentadas.
“É uma felicidade, no Dia da Justiça, estar falando de mulheres, sobre mulheres, e sobre como queremos mulheres e homens juntos contribuindo na construção do mundo”, disse a ministra ao receber a homenagem.
A magistrada ressaltou que há mais mulheres de notável saber jurídico e reputação ilibada que querem e podem contribuir com o STF. Entretanto, disse, o Supremo, assim como o Congresso, ainda é um espaço com baixa representação feminina.
O mesmo acontece na área da tecnologia, afirmou. “Acabamos de fazer uma das fases de auditagem das urnas eletrônicas e, das quase 140 propostas que apresentaram neste ano, tinham apenas 13 mulheres”, disse Cármen Lúcia, que comemorou iniciativas como a do Prêmio Todas para mudar esse cenário.
A presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no biênio 2024-2026 foi reconhecida por sua trajetória pública marcada pela defesa da democracia, igualdade e cidadania —valores que a tecnologia pode fortalecer ainda mais.
As mulheres que venceram cada uma das dez categorias da premiação usam a tecnologia para ampliar direitos, inclusão, oportunidades e qualidade de vida de brasileiros, com recorte de gênero, raça, classe e idade.
O processo para escolher as vencedoras passou por uma curadoria da Folha e da Alandar, que sugeriu 49 nomes de profissionais que são referências nas áreas das dez categorias do prêmio. Além dessas mulheres, as juradas tiveram liberdade para indicar nomes que estivessem fora da lista. A contagem dos votos foi feita pela equipe de Todas.
Na categoria economia digital, a premiada Dani Junco mostra como a tecnologia pode transformar a maternidade em propulsora de carreira, e não um obstáculo. Ela fundou a B2Mamy, aceleradora de negócios focada em conectar mães ao ecossistema de inovação e tecnologia. Com isso, capacitou mais de 30 mil mulheres no ecossistema digital.
“Como ela [Dani] diz, nunca subestime a força de uma mulher que deseja ser um exemplo para seu filho”, disse Michele Junco, que recebeu o troféu pela irmã.
Luana Génot foi a premiada em inteligência artificial por criar a Chama a Deb, primeira IA dedicada a questões étnico-raciais. A ferramenta é gratuita e está sempre disponível, com a intenção de democratizar o acesso ao conhecimento sobre racismo.
“É um reconhecimento que me emociona demais e gosto de pensar que a tecnologia vai depender da forma como a gente usa ela”, afirmou Génot, que também ressaltou a necessidade de mais financiamento para a tecnologia.
Já Nina Santos recebeu o reconhecimento em democracia, informação e liberdade de expressão por desenvolver políticas digitais para enfrentar a desinformação. Ela tem sido uma figura central no debate público sobre a preservação da democracia em ambientes virtuais.
“Ser mulher, negra, nordestina nesse debate só me faz ter a dimensão ainda maior do que nos falta. Do quanto as violências absurdas do cotidiano se reproduzem e de como para superá-las ainda precisamos de união”, disse Santos.
Na categoria de capacitação e formação em tecnologia, a premiada Camila Achutti fundou a Mastertech, escola de pensamento digital que amplia o ensino de programação e participação de mulheres no meio tecnológico.
“Estudei muito, andei por muitos lugares, e ainda não achei tecnologia mais escalável do que educar uma mulher”, disse Achutti.
O Instituto Alana foi celebrado na categoria de infância e adolescência online por usar tecnologia para promover ambientes digitais mais seguros. Os projetos de Ana Villela, Isabella Henriques e Maria Mello influenciam políticas públicas e protegem crianças no espaço virtual.
Fernanda Ribeiro foi a premiada em conectividade e inclusão digital ao usar soluções tecnológicas da fintech Conta Black para ampliar acesso financeiro a populações periféricas.
“Esse prêmio é para mostrar que a gente precisa continuar o que a gente faz”, disse Ribeiro, após afirmar que mesmo com a tecnologia financeira cada vez mais desenvolvida, mulheres pretas e periféricas continuam com dificuldade para acessá-la.
A categoria de sustentabilidade premiou Julia Shimbo, que usa tecnologia de monitoramento territorial de alta resolução para fortalecer a proteção ambiental. No MapBiomas, transforma dados em ferramentas essenciais para políticas climáticas.
Tatiana Coelho de Sampaio, premiada em desenvolvimento e pesquisa, lidera descobertas biotecnológicas como a da polilaminina —uma proteína que oferece esperança de recuperação de movimentos em pacientes com paraplegia e tetraplegia.
“Sou bióloga de formação e tive uma tia-avó bióloga, cientista, que foi uma mulher incrível. Temos que lembrar de todas as mulheres que construíram o caminho que nos trouxe até aqui”, disse Sampaio.
Em governo digital, a premiada foi Daniela Madeira, que administra iniciativas de IA, inovação e dados no CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Sua atuação fortalece a transparência e eficiência tecnológica no sistema de justiça.
Lílian Cintra, por sua vez, foi reconhecida em inovação e as políticas para o futuro digital por formular diretrizes nacionais de segurança cibernética, dados e direitos digitais. Ela une tecnologia e direitos humanos na construção do futuro.
“É em cada linha de código que a gente vai olhar para o futuro. Eu, uma mulher do agreste pernambucano, me pergunto muito o que fez parte dessa jornada, dessa caminhada. E primeiro de tudo, sempre foi a coletividade”, disse Cintra sobre construir uma rede segura para meninas e meninos.
Para Flavia Lima, secretária-assistente de Redação e editora de Diversidade da Folha, o prêmio lembra que a inovação feminina é um motor histórico ainda frequentemente esquecido.
“Seguiremos comprometidas em garantir que suas vozes e seus projetos tenham visibilidade. Parabéns às vencedoras do Prêmio Todas e obrigada pela construção diária de um futuro que esperamos seja mais justo e inclusivo para Alanis, Laísis, Tainaras, Catarinas e muitas outras de nós”, disse no encerramento.