Estudo da USP identifica uso de cocaína na musculação – 26/11/2025 – Equilíbrio e Saúde

Um estudo realizado por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) identificou que drogas associadas ao narcotráfico são usadas para melhoria de performance entre praticantes de musculação.

Elas se juntam aos esteroides anabolizantes e a outros fármacos que historicamente já são utilizados tanto para ganho de massa muscular quanto para combater efeitos colaterais decorrentes deles.

Não é exatamente uma novidade a presença dessas substâncias, mas há uma relativização do uso que ganha espaço nas redes sociais, podendo elevar a quantidade de usuários e os riscos à saúde pública, segundo especialistas.

Entre as drogas, estão cocaína, maconha e efedrina –esta última utilizada para produção de metanfetamina. O leque inclui ainda insulina, tadalafila e substâncias do tipo Sarms, moduladores de receptores androgênicos, utilizados para potencializar o efeito de esteroides nas células.

A análise foi feita entre dezembro de 2024 e outubro de 2025 em grupos de vendas e troca de informações sobre as drogas no WhatsApp e no Telegram. O método utilizado foi a netnografia. Similar à etnografia, consiste em acompanhar de perto indivíduos de uma determinada cultura para sintetizar um perfil acerca do grupo. Foram listadas, ao todo, 46 drogas.

Segundo o pesquisador Marcel Segalla, da Faculdade de Medicina da USP, a cocaína é utilizada como potencializador de emagrecimento e melhora de atenção. O uso dessa droga, diz ele, que é responsável pelo estudo, é mais pontual entre os usuários.

Já a maconha é utilizada para efeito analgésico, isto é, para reduzir as dores musculares pós-treino. O uso também é associado à melhoria no sono (importante no processo de ganho de massa muscular) e para aumentar o apetite. As drogas são anunciadas nas redes sociais e nos próprios grupos dos aplicativos de mensagens.

“No caso da maconha, há também um uso associado ao controle da agressividade. Como alguns esteroides podem elevar a agressividade entre os usuários, eles recorrem à Cannabis para reduzir esse efeito”, explica Marcel.

O perfil dos usuários varia. Há homens e mulheres de diferentes ocupações e extratos sociais. Motoristas de aplicativo, guardas municipais, faxineiras, fisioterapeutas e mesmo médicos estão entre eles, segundo o pesquisador.

Outra droga a integrar a lista é a cetamina, que é utilizada na saúde em anestesias, por seu efeito analgésico, e no tratamento de depressão resistente. No mundo fitness, é usada para aliviar a dor muscular.

Maurício Henriques Damasceno, psicólogo do esporte e especialista em psicopatologia pela USP, avalia que se trata de um fenômeno perigoso. O culto a essas substância é ampliado pela demonstração de corpos perfeitos nas redes sociais e pela pressão estética que isso causa.

“Esse tipo de conteúdo [sobre drogas] se tornou disponível em uma escala nunca antes vista. E desperta uma fragilidade que o indivíduo por vezes já carrega consigo, acerca de seu corpo e de sua performance. Isso foi muito bem captado pelos mercadores dessas substâncias”, afirma Damasceno, que é psicólogo da Doctorália.

Ele continua: “meninos aprendem desde cedo a se identificar com o ideal do corpo grande e musculoso, e meninas, com o corpo sensual. São elementos que, inconscientemente, vão derrocar na necessidade de alcançar esses padrões na vida adulta”.

O nutricionista e influenciador Rodrigo Góes é uma voz contra as drogas associadas a atividade física nas redes sociais. No Instagram, TikTok e Youtube, ele produz conteúdo que inclui análises de usos de drogas por outros influenciadores do mundo fitness alertando para o risco de cada substância.

“Existe, sim, uma cultura de uso que banaliza as drogas”, diz Góes sobre a hipótese de culto às substâncias. “Quando comecei a fazer esse trabalho queriam me matar. Falar sobre isso era proibido no meio. Hoje, você é estranho se não usá-las. As drogas sustentam um status de coragem, de virilidade, que atrai o jovem. Ao mesmo tempo, o acesso a elas é muito fácil.”

Góes, que tem 2 milhões de seguidores no Instagram, 1,53 milhão no Youtube e 1.8 milhão no TikTok, diz que o uso de cocaína e efedrina é comum nos Estados Unidos, onde jovens influenciadores exibem suas rotinas de academia e abuso das substâncias. “O futuro das drogas no Brasil reflete o presente dos EUA. Tudo o que descobrem lá importam para cá”, afirma.

Rogério dos Santos Dias Bria, 42, é ex-usuário de esteroides. Durante oito anos usou hormônios como oxandrolona, trembolona e stanozolol. A eles, associava outros como o clenbuterol (desenvolvido para promover a broncodilatação em equinos). Participante do estudo da USP, ele abandonou as drogas quando passou a ter contato com a universidade.

“Hoje, com 42 anos, percebi que também posso chegar a bons lugares sem o anabolizante. A procura por um corpo perfeito é muito grande, mas é possível conseguir isso de forma saudável, sem extrapolar os limites da saúde”, afirma.

Ao filho de 19 anos, que está começando na musculação, Bria propaga o legado de uma vida saudável. “Tudo que você precisa já está aí no seu corpo, não precisa importar nada de fora.”

Autoria: FLSP

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