Jovens viciados em apostas buscam novos grupos de apoio – 15/11/2025 – Equilíbrio

Crescendo no centro oeste dos Estados Unidos, Zach Everett via o jogo como uma diversão. Ele jogava pôquer com amigos e ia ao hipódromo com seu pai. Foi só em 2019, logo após se mudar para Denver, que os problemas começaram.

Naquele ano, o estado do Colorado votou pela legalização das apostas esportivas. O salário do seu emprego não era suficiente para cobrir o aluguel. Talvez, pensou ele, pudesse compensar a diferença apostando em esportes online.

Começou com esportes e times que conhecia bem —particularmente seu time de basquete favorito, o Minnesota Timberwolves— mas em 2021 já estava apostando em qualquer coisa que pudesse. Uma vez ganhando US$ 55 mil (cerca de R$ 291 mil) em um torneio de golfe, para depois perder tudo nos dois dias seguintes. “Eu nem sabia que isso era possível”, diz ele. Em vez de parar, fez mais apostas que não podia cobrir e pegou empréstimos de amigos e familiares que, sem saber, apoiavam seu vício.

Não demorou muito para que Everett percebesse que tinha um problema. Mas quando visitava grupos de apoio, normalmente não via ninguém como ele. Frequentemente, os jogadores eram muito mais velhos e falavam sobre jogar blackjack e pôquer em Las Vegas. Como poderia explicar a tentação de ter uma casa de apostas em seu celular?

“Essas pessoas são jogadores de cassino que estão limpos há 10 anos”, diz Everett, de 31 anos. “Eles nem sabem o que é uma conta DraftKings (empresa de jogos americana).”

Desde 2018, quando a Suprema Corte dos EUA derrubou uma lei que proibia apostas esportivas na maioria dos estados, o jogo esportivo se transformou em uma indústria multibilionária de alta tecnologia, mas os espaços para apoio e tratamento permaneceram praticamente os mesmos. Especialistas dizem que não há pessoas suficientes ligando para os números gratuitos destinados a ajudar, e menos ainda vão à terapia ou completam programas de recuperação.

Terapeutas, pesquisadores e jogadores em recuperação começaram a se perguntar se é hora de considerar abordagens diferentes para lidar com os problemas específicos do jogo online.

Representantes da indústria do jogo dizem que estão comprometidos em ajudar jogadores problemáticos. As empresas gastam milhões de dólares promovendo apostas responsáveis, e a maior parte dos fundos estaduais usados na recuperação de dependência vem de impostos sobre jogos de azar.

“Criar jogadores problemáticos não é uma oportunidade sustentável e durável para esta indústria”, diz Joe Maloney, porta-voz da American Gaming Association.

Mas especialistas dizem que os jogadores problemáticos estão ficando mais jovens. O Jogadores Anônimos viu um influxo de jovens, segundo um porta-voz da organização. Na Pensilvânia, onde a receita de jogos foi uma das mais altas do país no ano passado, dois terços das pessoas que pedem ao estado para proibi-las de jogar têm menos de 44 anos.

Muitos jovens, em particular, ainda estão lutando para encontrar pessoas que entendam os desafios particulares que os aplicativos de apostas esportivas apresentam, diz Cait Huble, porta-voz do Conselho Nacional dos Estados Unidos sobre Jogo Problemático.

“Eles estão entrando nessas salas de J.A. tipo ‘Não me vejo refletido aqui'”, disse ela, referindo-se ao Jogadores Anônimos.

Sam Demello, um jogador compulsivo em recuperação de 38 anos, descreveu linhas de ajuda como o “1-800-GAMBLER” (código de discagem para ajuda nos EUA) como “a solução mais analógica para um problema digital”. Ele acha que o mesmo frequentemente é verdade para o Jogadores Anônimos. “Se minhas duas opções são sentar nesse porão empoeirado de igreja com um monte de caras velhos uma hora por dia pelo resto da minha vida, ou ser um viciado e continuar escondendo isso de todos os meus amigos e família, eu serei um viciado”, diz ele.

Algumas pessoas estão experimentando novas abordagens. No ano passado, Demello lançou uma plataforma de apoio digital chamada Evive para fornecer opções de tratamento e conexão. Outra empresa, Birches Health, concentra-se especificamente em jovens e jogos de azar online.

“Há uma década, a Birches Health provavelmente não poderia ter existido”, disse Elliott Rapaport, fundador da empresa.

No estado do Colorado, Everett tentou todos os tipos de maneiras de se manter sóbrio. Ele foi para programas de internação, programas ambulatoriais e todos os grupos de apoio que pôde encontrar. Mas sempre encontrava seu caminho de volta para os aplicativos de apostas.

E assim ele recaiu. Depois recaiu novamente, incapaz de encontrar uma solução que funcionasse.

Uma nova geração de jogadores

O jogo é o único vício comportamental reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais que não é uma dependência química. Mas defini-lo é difícil.

Uma indicação comum de um problema é a dificuldade financeira, dizem os especialistas. Alguns terapeutas dizem que o comportamento é uma medida ainda melhor. Mentir para os entes queridos é um sinal clássico, disse Mike Sciandra, diretor executivo do Conselho de Nebraska sobre Jogo Problemático, que está se recuperando de sua própria dependência de jogos.

Ainda mais revelador, disse ele, é quando os jogadores começam a exceder seus limites financeiros (entrando em dívidas, sacando um fundo universitário) ou limites de tempo (jogando durante o jantar ou às 3 da manhã).

Os aplicativos facilitaram para Everett apostar sempre que tinha vontade. Ele ficava acordado até tarde apostando em esportes que conhecia pouco, como tênis de mesa russo e e-sports. Sua esposa não sabia.

Muitos dias, “eu estava dormindo duas, três horas por noite, no máximo, por um ano”, disse ele.

O jogo se tornou mais conveniente, mas a aparência dele também mudou. Os aplicativos oferecem as chamadas apostas de proposição, que são oportunidades de apostar em uma jogada individual ou em uma estatística de jogador. Especialistas dizem que, ao adotar a aparência e o estilo de videogames, os aplicativos são particularmente atraentes para homens mais jovens.

“É realmente como comparar maçãs e laranjas, quanto à aparência do jogo hoje versus como era há apenas 10 anos”, diz Sciandra.

Quando Everett parou de apostar por seis meses em 2023, um aplicativo ofereceu-lhe crédito toda semana, chamado jogo gratuito de fantasia. Se ganhasse, o crédito se transformava em dinheiro. Se perdesse, não devia nada. Um dia, ele decidiu colocar US$ 5 (cerca de R$ 26) em um time de basquete de fantasia que criou.

“Mas então eu fiz isso no dia seguinte, e se transformou em ‘vou apenas fazer cinco dólares à noite'”, disse ele. “E depois se transformou em: ‘Bem, vou fazer 20’. É uma progressão lenta para uma progressão rápida, muito rapidamente.”

A busca por ajuda

Em 2024, Everett tinha 29 anos, sem carro e sem emprego. Sua esposa o havia expulsado de casa, e ele estava frequentando três ou quatro reuniões do Jogadores Anônimos por semana, muitas vezes virtualmente. Mas nada disso realmente funcionava.

Então, no final do ano passado, alguém sugeriu que ele tentasse uma nova reunião semanal, afiliada ao J.A., nos arredores de Denver. Iniciado por um ex-lutador de artes marciais mistas, o grupo foi apelidado de Jogadores Anônimos para Jovens. Era um tipo diferente de grupo em um aspecto fundamental: atendia principalmente pessoas cujos problemas derivavam de aplicativos de apostas esportivas online.

Na superfície, usava os mesmos 12 passos, os mesmos livros. Até acontecia em um prédio de igreja. Mas para Everett, parecia diferente. Não era apenas que os outros entendiam a linguagem (embora entendessem). Ou que eles também tinham atingido o fundo do poço (embora tivessem). Era que eles se vestiam e falavam como ele. Eles riam mais. A maioria deles tinha começado a jogar depois de 2018 e tinha quebrado apenas no ano anterior.

Jamie Glick, presidente da Coalizão de Jogo Problemático do Colorado, uma organização sem fins lucrativos que conecta jogadores com tratamento, diz que se reconhecer nas pessoas ao seu redor é um elemento crucial para a recuperação eficaz, e um que muitas vezes está ausente da terapia e grupos de apoio.

“Este vício acontece no isolamento“, disse Glick. “É quando as pessoas encontram comunidade que as coisas mudam.”

Nas reuniões, Everett disse que foi mais honesto do que havia sido antes. Ele contou como roubou de seu pai e namorada. Como uma vez disse a uma tia que estava coletando dinheiro para um presente de aniversário e depois apostou tudo. Como assustou sua esposa.

Atualmente, há dezenas de pessoas em cada reunião. Mas, o apoio se estende além disso. Everett joga basquete nos fins de semana com Ben e Matt, dois outros membros do grupo que pediram para ser identificados apenas pelo primeiro nome devido a preocupações com suas reputações. Outros jogam pickleball ou golfe. E eles trocam muitas mensagens.

“Nosso aluguel aumentou US$ 900 (cerca de R$ 4.700) por mês —tenho tido ataques de pânico novamente”, escreveu Everett um dia em setembro, acrescentando: “Mas estou me mantendo limpo.”

“Mantenha-se forte”, respondeu Matt. “Você está na melhor posição da sua vida. Vamos continuar assim. Eu te ligo mais tarde.”

Everett está sóbrio há 18 meses, diz ele, e ainda não confia em si mesmo com um cartão de crédito. A maioria dos jogadores em recuperação recai. Mas desta vez, ele está mais confiante de que pode permanecer sóbrio.

No início do verão, Everett se reuniu com Ben e Matt em um campo de golfe. Eles riram, jogaram golfe, brincaram uns com os outros e tomaram algumas cervejas. Depois de um tempo, Matt pegou um telefone para assistir às finais da Conferência Oeste da NBA. O Oklahoma City Thunder estava derrotando os Timberwolves, o time favorito de Everett.

“Isso é tão ruim!” lamentou Everett.

“Vinte e dois pontos”, concordou Matt, olhando para o placar.

Everett suspirou. “Antigamente”, disse ele, “eu teria apostado tanto dinheiro neste jogo.”

Então a dupla perdeu o interesse, desligou o jogo e saiu. Não havia spread para cobrir, nenhum dinheiro de último minuto no quarto período a ser ganho. Eles eram apenas alguns amigos, saindo juntos, assistindo a um jogo.

Este texto foi publicado originalmente aqui.

Autoria: FLSP

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