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Levanta a mão quem já ouviu a mãe mandando passar creme na perna “russa” (ressecada) ou tem memórias da sensação áspera da bucha vegetal no corpo no banho logo após uma ida à feira.
Há cuidados com a pele que fazem parte do cotidiano de famílias negras e outros que passam batido nos lares, como o uso do protetor solar, às vezes deixado de lado por desconhecimento sobre sua importância ou pela falta de produtos adequados para tons de pele mais escuro.
Vamos começar esta edição entendendo o que diferencia a pele negra das demais. Segundo a dermatologista Monalisa Nunes, a pigmentação e o colágeno são os principais pontos.
“A pele negra tem uma produção e um armazenamento maior de melanina, e o tom do pigmento é mais marrom”, diz. Já a produção de colágeno é maior, e as moléculas da proteína são mais robustas, de acordo com a médica.
Essas características garantem alguns benefícios…
- Maior proteção contra a radiação solar.
- Pele naturalmente mais firme.
- Mais resistência aos sinais de envelhecimento.
…mas também trazem desafios:
Você já ouviu falar dos “fototipos de pele”?
O termo foi criada em 1975 pelo cientista Thomas Fitzpatrick e é usada na dermatologia para classificar os tons de pele levando em consideração a reação ao sol —chance de vermelhidão ou bronzeamento, por exemplo.
De acordo com a teoria, quanto mais melanina uma pele tem, mais resistente à queimadura solar e a determinados tipos de câncer ela pode ser. E maior sua capacidade de bronzeamento.
Tipo 1 : Pele muito clara, geralmente com sardas, cabelo ruivo ou loiro, olhos claros. Queima facilmente. Raramente se bronzeia.
Tipo 2: Pele clara, cabelo loiro ou castanho claro, olhos claros. Queima com facilidade. Pode adquirir um leve bronzeado.
Tipo 3: Pele clara a média clara, cabelo castanho, olhos castanhos ou claros. Queima ocasionalmente. Bronzeia gradualmente.
Tipo 4: Pele média, cabelo castanho ou preto, olhos castanhos. Queima raramente. Bronzeia com facilidade.
Tipo 5: Pele média escura, cabelo preto, olhos escuros. Quase nunca se queima. Bronzeia facilmente e de forma intensa.
Tipo 6: Pele escura, cabelo preto, olhos escuros. Nunca se queima. Bronzeia profundamente.
Essa classificação, porém, é limitada, especialmente para o Brasil. De acordo com a dermatologista Katleen da Cruz Conceição, as categorias —apenas seis— não abarcam de forma precisa todos os fototipos existentes no país.
No caso da maquiagem, o ideal é falar sobre tonalidades de pele, não fototipos. Cientistas já mapearam mais de 30 tonalidades no Brasil.
Importante: a pele negra não é única. “Existe pele negra seca, oleosa, com flacidez, ainda mais quando a gente fala do Brasil, que é um país extremamente miscigenado”, complementa Monalisa.
Entenda os tipos de pele do rosto
Oleosa: produz mais sebo do que o necessário, o que resulta em poros mais dilatados e brilho excessivo.
Seca: produz quantidade insuficiente de hidratação e oleosidade. Tende à aparência opaca, descamação e coceira.
Mista: tem uma zona T (testa, nariz e queixo) oleosa com laterais secas ou normais.
Normal: produz oleosidade e hidratação de forma equilibrada.
↳ Essa classificação não é fixa. Clima, mudanças hormonais e alimentação podem influenciar a resposta da pele.
↳ Pessoas negras tendem a ter a pele do rosto mais oleosa e a do corpo mais ressecada.
Segundo a dermatologista, como a pele negra pigmenta com mais facilidade, deve ser tratada com os cuidados de uma pele sensível. Veja dicas:
- Evite produtos irritativos, adstringentes ou com fórmulas agressivas. Ácidos podem ser usados, mas com indicação médica e cautela para evitar irritações, ardência ou descamação.
- Escolha produtos com função de hidratação ou voltados à pele sensível.
- Opte por ativos como a vitamina C e a niacinamida, substâncias que ajudam a uniformizar o tom e prevenir manchas sem clarear a pele.
- Dê uma chance a produtos “oil free”, caso tenha a pele oleosa. Protetor solar, hidratante e sabonete com controle da oleosidade podem ser bons aliados.
E mais: limpeza e hidratação são cuidados importantes para o rosto, mas a prioridade é a fotoproteção, orienta Katleen, ainda que muita gente ache que peles mais escuras não precisam de fotoproteção, um mito.
O indicado é um protetor com FPS 50 ou mais, enquanto a pele negra tem uma proteção solar natural equivalente a um fator de proteção FPS 15, apenas.
↳Protetores sem cor protegem contra a radiação ultravioleta (UV) do sol, que pode gerar queimaduras, envelhecimento precoce e câncer de pele.
↳Além da proteção anterior, protetores com cor também protegem contra a luz visível e funcionam como base de maquiagem.
“Se o tom não for exato, porém, há o risco de um ‘efeito máscara’“, alerta o maquiador Tássio Santos, conhecido como Herdeira da Beleza.
Ativos comuns em protetores solares, como o óxido de zinco, tendem a deixar um aspecto acinzentado ou esbranquiçado na pele.
“É bom ficar de olho nas informações que as marcas fornecem, mas o jeito mais fácil de achar o protetor ideal é testando no rosto”, diz o especialista.
Além do sabonete, outras etapas são importantes para a saúde da pele. Veja:
Hidratação
Ajuda a manter a barreira protetora da pele, e a prevenir o envelhecimento, a irritação e o ressecamento. No inverno, a farmacêutica indica o uso de óleos vegetais antes e depois do banho para prevenir o ressecamento da pele.
“As manteigas vegetais e os óleos seguram a hidratação mais tempo na pele. Eles formam uma barreira que impede que a água de dentro da pele evapore”, explica. Os cremes têm a mesma função, mas tendem a oferecer um efeito mais leve.
Proteção solar
O corpo, assim como o rosto, deve receber proteção solar. O recomendado é um FPS 30 diariamente e FPS 50 ou mais em situações de exposição ao sol, como na praia.
Esfoliação
Serve para remover a camada de células mortas da pele, potencializar a absorção de ativos hidratantes e aumentar a circulação sanguínea. Pode ser feita com bucha vegetal, escovas, cremes ou sabonetes esfoliantes.
A pele humana passa por uma renovação aproximadamente a cada seis semanas. “Conforme envelhecemos, o órgão vai perdendo essa capacidade, e o banho somente com água e sabão não consegue remover a camada de pele morta. Isso pode aumentar o ressecamento ou a irritação”, explica a farmacêutica Mona Soares.
Ela recomenda esfoliar a pele de uma a duas vezes por semana.
Devo investir em produtos específicos para a pele negra?
Não é imprescindível, mas pode.
“Quando a gente fala de hidratante corporal, não tem necessidade de especificar que é voltado para a pele negra, até porque nem toda pele negra precisa de um ativo antimanchas”, diz Monalisa. “Mas também acho importante saber que algo foi criado pensando em você, com uma hidratação mais potente, por exemplo. Pode ser empoderador.”
Ao buscar um produto que uniformize manchas, tenha cuidado com o risco de clareamento da pele, alerta Mona Soares. “Muitos desses produtos para manchas não são desenvolvidos levando em consideração a melanina”, explica.
↳ Por isso, busque hidratantes com ativos que atendam às suas necessidades específicas. “Niacinamida, aloe vera, pantenol, glicerina, manteiga de cacau e manteiga de karité são muito indicados por causa do poder de hidratação e uniformização do tom da pele”, indica a farmacêutica.
Mas… De nada adianta tudo isso se você não cuidar da saúde. Uma alimentação equilibrada e a ingestão adequada de água são essenciais para uma pele saudável.
↳ Opte por uma alimentação rica em ômega 3, presente em alguns peixes, e consuma uma variedade de frutas, legumes e vegetais.
Questão de saúde
Dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer) mostram que pessoas negras estão entre as mais afetadas pelo melanoma acral, tipo agressivo de câncer de pele. A doença geralmente se desenvolve nas palmas das mãos, solas dos pés e unhas. Fique atenta a manchas escuras, especialmente nessas regiões.
A falta de conscientização pode levar ao diagnóstico tardio, tornando o tratamento mais difícil.
Consultar um dermatologista com frequência e garantir um diagnóstico precoce no caso de desenvolver a doença são o segredo para garantir uma pele mais saudável.
Dica de amiga
Reforçar a hidratação em áreas como cotovelos e joelhos pode ajudar a prevenir manchas escuras, e usar bonés ou chapéus pode ajudar proteger seu rosto da exposição ao sol, mas ir ao dermatologista deve ser parte rotineira de seus cuidados com a saúde (e beleza) da sua pele.
Uma pesquisa do Datafolha, em parceria com o Grupo L’Oréal e a Sociedade Brasileira de Dermatologia, mostra que 58% dos brasileiros negros afirmam nunca ter se consultado com um dermatologista, enquanto entre os brancos esse índice é de 42%.
Estar em um consultório médico pode ser desconfortável e ir ao dermatologista pode parecer fútil, mas estar em dia com a saúde da pele é indispensável. Não se trata de fazer procedimentos estéticos, mas de cuidar da saúde do maior órgão do corpo humano. A especialidade é oferecida pelo SUS.