Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a violência contra a mulher afeta uma em cada três mulheres. Os impactos da violência são físicos, mas também de saúde mental. No climatério, momento crucial de transição hormonal feminino, esses impactos podem ficar ainda mais evidentes.
Um estudo realizado na FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) pela psicóloga Débora Krakauer estima o impacto dessas agressões na saúde, no psicológico e na sexualidade de mulheres no climatério. Participaram da pesquisa 100 mulheres, sendo 50 com o histórico de serem vítimas de violência doméstica, e 50 sem esse histórico.
José Maria Soares Júnior, ginecologista chefe do departamento de obstetrícia e ginecologia e coordenador do ambulatório de climatério da FMUSP, além de orientador do estudo, diz que falar sobre violência doméstica ainda é um tabu, ao explicar a lacuna de estudos no tema.
A pesquisa constatou que a violência sofrida por essas mulheres é recorrente em 90% dos casos, ou seja, acontece normalmente em diversos períodos da vida. Outro achado é que frequentemente envolve agressão psicológica (80%), física (74%) e sexual (66%).
O problema, diz Krakauer, é que muitas vezes as próprias vítimas têm dificuldade de reconhecer a agressão, e essa situação se arrasta até o climatério, período aproximadamente entre 40 e 65 anos.
“Às vezes são mulheres que estão numa violência de muitos anos, muito frequente e muito enraizada, e muitas das vezes a paciente nem sabia identificar o que ela estava sofrendo era uma agressão”, diz a pós-graduanda.
Por ser um período de transições hormonais, físicas, emocionais e psicológicas, o climatério torna-se um contexto de maior vulnerabilidade, explica a ginecologista e mastologista Amanda Vanzelli, que não está envolvida no estudo.
“As flutuações hormonais impactam diretamente o sistema nervoso central, o padrão de sono, a regulação do humor e a resposta ao estresse, reduzindo a resiliência emocional”, explica.
Os resultados do trabalho de Krakauer e Júnior apontam uma associação estatisticamente significativa entre a violência doméstica e o aumento de doenças crônicas e queixas ginecológicas. Principalmente porque o estresse crônico e o estresse pós-traumático, decorrente do abuso, impactam diretamente o funcionamento metabólico e cardiovascular.
O relatório parcial da pesquisa mostra que as pacientes que são vítimas de violência tem uma prevalência nove vezes maior de diabetes, o dobro de hipertensão arterial, maior incidência de endometriose e infecções ginecológicas do que as pacientes do grupo controle.
A principal hipótese de Krakauer é a psicossomática, que é a somatização dos traumas psicológicos vividos pelas mulheres vítimas de violência. Ela diz que, no questionário aplicado de TEPT (transtorno de estresse pós-traumático), 100% das mulheres violentadas pontuaram.
“São mulheres que estão sempre estressadas, engatilhadas, com cortisol alto, que tem altos índices de ansiedade, são mais deprimidas e que sentem esse efeito no corpo”, diz Krakauer. Júnior complementa que essas pacientes muitas vezes são taxadas de poliqueixosas, quando na verdade estão traumatizadas.
O impacto na vida sexual das mulheres também foi abordado no estudo. As pacientes que foram vítimas de violência apresentaram vaginismo em 42% dos casos (contra 6% no controle), e o desconforto sexual geral foi quase duas vezes mais frequente.
Vanzelli afirma que a vivência do medo, humilhação ou coerção interfere na resposta corporal de excitação sexual, levando o corpo a um estado de alerta crônico. “A relação sexual passa a ser associada à dor e à ameaça, e não à intimidade, desencadeando quadros de vaginismo, anorgasmia e aversão sexual”, diz.
Os especialistas entendem que o olhar para a mulher que sofre violência, em especial no climatério, é papel de múltiplos profissionais da saúde. Não apenas do psicólogo ou do ginecologista, mas desde a recepção dos centros de saúde, profissionais de enfermagem, fisioterapeutas, assistentes sociais e médicos de família.
“Precisamos conversar com toda a sociedade também”, afirma Júnior. “Não só na saúde, mas na educação, a gente tem que conversar nas escolas, conversar com os pais, com os filhos. Não adianta depois no climatério tentar resolver, que aí eu não vou conseguir.”