Um senhor chegou embriagado ao PS e eu não quis ajudá-lo – 03/11/2025 – Vida de Alcoólatra

A sala estava completamente lotada, repleta de pessoas visivelmente abatidas. Algumas balançavam as pernas, outras massageavam os ombros ou tocavam as feridas que as haviam levado até ali, ao pronto-socorro. Eu esperava minha vez, com uma dor intensa no ouvido e na cabeça. O silêncio só era rompido pela voz da enfermeira, chamando, um a um, os nomes dos pacientes que seriam atendidos.

Já estava cansada e só queria sentar, mas não havia cadeiras suficientes para todos. Os mais velhos e as gestantes ocupavam a maioria e as demais já estavam tomadas quando cheguei. Era um sábado, e tudo o que eu queria era estar em casa, descansando ou fazendo qualquer outra coisa. O problema é que meu ouvido latejava e minha cabeça não me deixava em paz. Restou, portanto, enfrentar o PS.

De repente, ouvimos um homem falando alto, soltando pequenas gargalhadas e a porta se abriu. Entrou um senhor de, acredito, uns sessenta anos. A cabeça sangrava, e o corpo estava coberto de hematomas. Mesmo depois de entrar no recinto, ele não parou de falar nem de rir. Eu estava bem ao seu lado e pude sentir o cheiro forte de álcool que ele exalava. “Que situação”, pensei. Mas não pude deixar de lembrar das vezes que estive naquele estado, embriagada.

A questão é que, mesmo com todo o meu passado, eu estava sem paciência para o senhor, sentia empatia pelos outros. Um pouco contraditória essa minha postura. Na verdade, entendi o quão difícil é lidar com alguém bêbado. Fiquei me sentindo culpada, mas aconteceu. Eu simplesmente não queria ajudar aquele homem que ria demais e ainda pediu para ir à lanchonete beber.

Será que eu deveria levantar a voz e defendê-lo diante dos demais? Dizer que ele merecia ser tratado como qualquer um de nós? Talvez. Uma vez, já contei aqui, acordei em um hospital, numa semi-UTI, e a médica começou a me dar um sermão. Disse que eu estava ocupando o leito de alguém que certamente o merecia mais. Aquilo foi um golpe enorme. Eu nem sabia exatamente o que tinha feito para acabar naquele lugar…naquele leito “imerecido”. Talvez eu também tenha chegado causando no hospital.

A enfermeira me chamou e não vi mais aquele senhor. Mas a cena me deixou bem incomodada. Por que não consegui me pôr na pele das outras pessoas que trataram e cuidaram de mim? Me odiei por alguns instantes.

É que a pessoa que eu sou hoje é tão distante daquela, dependente do álcool. Foi muito importante eu saber que não posso beber nem um gole, que nunca vou conseguir moderar, “beba com moderação” não existe no meu vocabulário. E não foi à base de sermão que aprendi, e sim com outras pessoas que sofrem com o alcoolismo e que se tratam.

Ao longo da minha recuperação, e até nos dias de hoje, já experimentei sentimentos muito ruins. Medo, culpa, pânico, raiva… Preciso me perdoar a cada vez. Em gestos pequenos como não ajudar o senhor, assim como em questões que acontecem comigo e que não tem muito o que fazer.

Voltar atrás, refazer erros do passado. Tudo isso é impossível. Mas é bom relembrar como eu era para reforçar a convicção de que nunca mais quero agir igual. Ser alcoólatra é viver refém do álcool. Não quero: a liberdade é incrível.


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Autoria: FLSP

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