Psicodélicos: terapia e religião não combinam – 06/11/2025 – Virada Psicodélica

Duas pragas gêmeas perseguem a ciência psicodélica em busca de legitimidade: flertes com o misticismo, ao endeusar o potencial terapêutico de seus efeitos subjetivos, e o mito da antiguidade greco-romana no uso ritual de substâncias alteradoras da consciência. Dois artigos recentes chegam para apontar a fragilidade desses alicerces.

“Para a medicina psicodélica realizar seu potencial, ela não deve ancorar-se nem no misticismo nem no reducionismo biológico, mas em empiricismo rigoroso”, conclui o primeiro texto, no Jama Psychiatry, periódico da Associação Médica Americana.

Os autores da Holanda, tendo à frente Jack Dahan, defendem que faltam evidências robustas para a convicção de que experiências subjetivas (a “viagem”) sejam necessárias para cumprir-se o benefício terapêutico dos psicodélicos. Não lhe excluem um papel decisivo, muito menos advogam preponderância de mecanismos farmacológicos na cura, mas criticam em especial racionalizações que apontam a espiritualidade turbinada por compostos como motor principal da melhora.

É curioso que a última afirmação do artigo qualifique como misticismo a pressuposição de que só a viagem conduza ao destino almejado –curar-se. A associação entre benefício terapêutico e experiência mística aparece como motivo central na produção acadêmica sobre psilocibina e depressão liderada por Roland Griffiths na Universidade Johns Hopkins, centro destacado de pesquisa psicodélica.

Um dos pilares desse viés edificante é a crença difundida entre psiconautas de que o uso transportador de psicodélicos tem raízes na Antiguidade, com destaque para a ingestão do “kykeon” nas iniciações aos Mistérios Eleusinos, séculos antes de Cristo. Uma tese demolida com vigor por Sharday Mosurinjohn e Richard Ascough, da Queen’s University no Canadá.

Seu artigo “Psicodélicos, Elêusis e a Invenção da Experiência Religiosa” saiu na publicação Psychedelic Medicine. No alvo da crítica está a afirmação de que o sacramento “kykeon” continha substâncias similares ao LSD derivadas do fungo ergot, parasita de cereais como o centeio, pois não há evidência direta disso nem na literatura clássica nem em achados arqueológicos.

A noção é propagada por Gordon Wasson e Albert Hofmann, figuras históricas da psicodelia, em livros como “A Estrada para Elêusis” (1978) e “Plantas dos Deuses” (1992). No templo dedicado à deusa da colheita Deméter e sua filha Perséfone milhares de pessoas se entregavam uma vez por ano a um transe de morte e renascimento regado com a bebida de composição desconhecida, que apenas por um encadeamento arbitrário de suposições se especula ter sido psicodélica.

Para Mosurinjohn e Ascough, o mesmo tipo de paroxismo pode ser alcançado por meios não farmacológicos como jejuns, cânticos, privação sensorial e frenesi grupal. No entanto, autores como Wasson e Hofmann criaram o termo “enteógeno” (gerador do divino interno) para designar o papel central dessas substâncias como desencadeadoras de uma religiosidade universal, primeva –e nada melhor para reabilitar psicodélicos do que um pedigree místico greco-romano.

“A presunção parece ser de que, se se podem encontrar antecedentes de uso ritual de enteógenos em uma tradição ocidental antiga como a de Elêusis, tão amplamente praticada no berço da democracia ocidental, Atenas, pode-se advogar que tal uso ritual recai claramente sob o direito constitucional à liberdade de religião”, escrevem Mosurinjohn e Ascough.

Isso para não mencionar que, ao remontar à Grécia, os enteogenesistas fazem tábula rasa das tradições indígenas usuárias de peiote, cogumelos Psilocybe, ayahuasca e jurema-preta –para citar apenas algumas práticas contemporâneas mais próximas de centros americanos de pesquisa, possivelmente tão ou mais antigas que a fabulada presença de psicodélicos no “kykeon” de Elêusis.


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Autoria: FLSP

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