Ter propósito na vida e paz interior pode melhorar coração – 12/03/2026 – Equilíbrio

Ter um propósito na vida e a sensação de paz interior pode estar associado a uma melhor saúde dos vasos sanguíneos e, consequentemente, a um menor risco de doenças cardiovasculares. A constatação é de um estudo brasileiro realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e publicado em dezembro na revista científica PLOS One.

A pesquisa investigou a relação entre bem-estar espiritual e disfunção endotelial, um marcador precoce de risco cardiovascular. O endotélio é uma camada fina de células que reveste o interior dos vasos sanguíneos e desempenha papel essencial no funcionamento da circulação. Ele ajuda a controlar a dilatação e a contração das artérias, além do fluxo sanguíneo, da inflamação e até a formação de coágulos.

Quando o endotélio perde a capacidade de funcionar adequadamente, surge a chamada disfunção endotelial. “Os vasos passam a ter mais dificuldade de se dilatar, há maior inflamação vascular, vasoconstrição, aumento da permeabilidade e coagulação”, explica o cardiologista Marcelo Franken, do Einstein Hospital Israelita.

No estudo, observou-se que níveis mais elevados de bem-estar espiritual estavam associados a menor probabilidade de disfunção endotelial, inclusive considerando fatores como índice de massa corporal (IMC), ansiedade e depressão. A espiritualidade foi analisada a partir de um questionário.

“Investigamos três dimensões principais da experiência espiritual: paz interior, sentido ou propósito de vida e fé. Por meio de perguntas simples, o questionário busca captar como a pessoa vivencia essas dimensões no dia a dia, permitindo transformar uma experiência subjetiva em um indicador mensurável para pesquisa científica”, afirma o cardiologista André Casarsa, um dos autores do estudo.

Os autores avaliaram 148 adultos saudáveis, com idades entre 18 e 60 anos. Os participantes passaram por exames para avaliar a saúde dos vasos sanguíneos e responderam sobre sintomas de ansiedade, depressão e espiritualidade, sem relação com alguma religião específica.

A diferenciação entre espiritualidade e religiosidade é importante. “A religiosidade refere-se ao quanto cada pessoa acredita, segue ou pratica uma ou mais religiões. Já a espiritualidade é um conceito mais amplo, presente em todas as pessoas, independentemente de serem religiosas ou não. Envolve a busca por significado, propósito e conexão consigo mesmo, com os outros ou com aquilo que a pessoa considera sagrado”, diz Julio Tolentino, professor de medicina do Hospital Universitário dos Servidores do Estado, da Unirio (Huse-Unirio), e orientador do estudo.

Entre os achados, as sensações de paz interior e sentido de vida foram as que mais se associaram à saúde vascular. A fé religiosa isoladamente não mostrou o mesmo benefício. “Isso sugere que o que parece ter maior impacto biológico não é necessariamente a prática religiosa em si, mas um estado interno de equilíbrio, significado e coerência com a própria vida”, afirma Casarsa.

Estresse e saúde do coração

Na cardiologia, já existem evidências mostrando que fatores psicológicos, estresse, ansiedade e depressão influenciam na saúde cardiovascular. Na investigação da Unirio, uma das hipóteses levantadas é de que estados associados a paz interior e propósito de vida ajudariam a reduzir mecanismos biológicos ligados ao estresse. “A redução do estresse e da inflamação é um dos principais mecanismos de proteção vascular e isso vem sendo estudado há muitos anos”, diz Franken.

Embora a espiritualidade ainda seja pouco discutida nas consultas médicas de rotina, a saúde emocional e psicológica tem ganhado espaço na prevenção cardiovascular. “Cada vez mais se recomenda que a saúde psicológica seja abordada durante as consultas, incluindo fatores como senso de propósito, otimismo, gratidão, pertencimento, mindfulness, estresse crônico, depressão e ansiedade”, diz o cardiologista do Einstein.

Ainda assim, os pilares clássicos da saúde do coração continuam fundamentais. “Podemos destacar oito: alimentação saudável, atividade física, não fumar, boa qualidade do sono, controle do peso, da pressão arterial, do colesterol e do diabetes“, afirma Marcelo Franken. “Além disso, também é importante lembrar da saúde psicológica e dos determinantes sociais de saúde, como condições de moradia, trabalho e relações sociais.”

Os pesquisadores da Unirio pretendem avançar na investigação e acompanhar os mesmos participantes por mais tempo para avaliar se níveis mais elevados de bem-estar espiritual se associam a menor risco de desenvolver alterações vasculares ou doenças cardiovasculares.

O grupo também planeja estudos de intervenção baseados em espiritualidade. “Estamos desenvolvendo pesquisas com estratégias como meditação, visualização terapêutica e experiências imersivas com realidade virtual, que podem promover relaxamento profundo e reduzir o estresse”, relata Tolentino.

Autoria: FLSP

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