Deixem a Tatiana trabalhar em paz – 05/03/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Minha colega Tatiana Sampaio, que agora dispensa introduções, está sendo alvo indevido de fritura. Não faltam opiniões dentro e fora das mídias sociais de gente supostamente educada, inclusive neste jornal, falando do que não entende e desacreditando uma das coisas mais sensacionais que já aconteceu na ciência brasileira, que é a descoberta por Tatiana de uma substância, a polilaminina, que facilita drasticamente a recuperação após lesões medulares quando injetada diretamente, e logo, no local.

O alvoroço sobre o qual os cientistas de poltrona se acham no direito de opinar foi causado por Tatiana responder a uma jornalista, no programa Roda Viva, que ela não acharia nem ético nem necessário fazer “experimentos controle” para testar a eficácia da polilaminina como tratamento para a recuperação após lesões medulares. Antes de você também dar sua opinião, vamos aos fatos.

Primeiro, sobre segurança: os primeiros estudos concluídos indicam que a injeção de polilaminina é segura em cães, ratos e humanos. É claro que serão precisos centenas de pacientes humanos para dizer isso com absoluta certeza. Como chegar lá? Injetando polilaminina na medula de pacientes humanos, oras.

Enquanto isso, saiba que, dependendo do estudo, até 40% dos pacientes que sofrem lesões da medula espinal morrem nos primeiros anos após a lesão, e em um estudo brasileiro, 26% dos pacientes com lesão cervical –ou seja, no pescoço– morreram ainda no hospital. Mortalidade elevada é esperada: estamos tratando de pessoas que sobreviveram a acidentes graves.

Segundo, sobre o “grupo controle”: o tal “controle” para a eficácia da injeção de polilaminina é injetar na medula lesionada literalmente qualquer outra coisa que sabidamente não funcione. Se nada for injetado, menos de 15% dos pacientes têm alguma recuperação espontânea. A literatura mostra que, até hoje, entre 0 e irrisórios 16% dos pacientes injetados com outras substâncias experimentais ou que apenas recebem cirurgia para descompressão têm recuperação de função motora. Ou seja: esses tratamentos não funcionam.

Em comparação, outro fato: até o momento, 100% dos pacientes no estudo piloto, mais os muitos que já receberam autorização para tratamento compassivo com polilaminina, tiveram recuperação motora. Deixe-me dizer de outra forma: TODOS os pacientes que receberam polilaminina e não morreram de outras causas tiveram recuperação de movimentos.

Tatiana e equipe não precisam fazer mais controles injetando salina em pacientes, pois inúmeros controles já foram realizados: são todos os outros pacientes que não receberam polilaminina até hoje. Fazer novos “controles” para a polilaminina significaria injetar aguinha na medula de pacientes recém-acidentados e cheios de esperança só para coletar estatísticas negativas para satisfazer público, revisores, controladores e maledicentes. Isso, sim, seria antiético. Pior: seria uma grande sacanagem quando se tem uma alternativa disponível. Os cientistas de poltrona precisam se colocar no lugar desses pacientes antes de abrirem a boca.

Lanço aqui minha campanha pelo uso inteligente dos dados das pessoas corajosas e esperançosas que pedem e recebem autorização para uso compassivo da polilaminina. Não é campanha para a Anvisa liberar a polilaminina agora já; é campanha para deixar a cientista trabalhar em paz.

Referências

Chize CM, Vivas DG, Menezes K, Freire MN, Jiddu RFP, Graça-Souza AV, de Souza-Leite E, Louzada P, Coelho-Sampaio T (2025). A laminin-based therapy for dogs with chronic spinal cord injury: promising results of a longitudinal trial. Front Vet Sci 12, 1592687.

Menezes K et al. (2024). Return of voluntary motor contraction after complete spinal cord injury: A pilot human study on polylaminin. MedRxiv 2024.02.19.24301010

Neumann CR, Brasil AV, Albers F (2009). Risk factors for mortality in traumatic cervical spinal cord injury: Brazilian data. J Trauma 67, 67-70.


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Autoria: FLSP

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