Se não há prova de Einstein ter dito que é mais fácil romper um átomo do que um preconceito, certo se mostra que a tirada se aplica bem à crença usual de que o uso regular de drogas como maconha e ayahuasca prejudicam o funcionamento do cérebro. É o oposto do que estabelece a ciência, como mais uma vez foi comprovado por pesquisadores da Espanha com colaboradores do Brasil.
O artigo “Personalidade, não cognição, distingue usuários crônicos de ayahuasca e Cannabis de não usuários” tem como primeiro autor José Carlos Bouso e como autor sênior Jordi Riba, investigadores do chá amazônico no Centro Internacional de Educação, Pesquisa e Serviço Etnobotânicos (Iceers, em inglês) de Barcelona. Assinam ainda Jaime Hallak e Rafael dos Santos, da USP de Ribeirão Preto.
O estereótipo corrente de “maconheiro” descreve uma pessoa aérea, com problemas de memória e atenção, talvez violenta sob efeito euforizante do THC, psicoativo da Cannabis sativa. O preconceito parece ser menor com frequentadores das igrejas Santo Daime, União do Vegetal ou Barquinha, onde se usa ayahuasca em geral duas vezes por mês, mas eles tendem a ser vistos como pessoas mentalmente peculiares.
Bouso & cia. pesquisaram 219 usuários regulares e não usuários dessas drogas na Catalunha: 69 frequentadores do Santo Daime na Espanha, 56 membros de clubes catalães de Cannabis e 94 que não as utilizam. No caso de ayahuasca se exigiram ao menos dez dias de abstinência e, no da maconha, 30 dias —isso porque pesquisas anteriores indicaram que os componentes psicoativos do chá são metabolizados mais rapidamente que os da marijuana.
Investigou-se um total de 126 variáveis por meio de testes e questionários. O grupo era relativamente homogêneo, com pequenas diferenças: adeptos de Cannabis um pouco mais jovens, que começaram a usá-la mais cedo (em média aos 18 anos) do que ayahuasqueiros passaram a tomar o chá (aos 36 anos).
Como participaram 219 voluntários, o total de observações tratadas estatisticamente chegou a 27.594. Alguns achados interessantes emergiram desse oceano de dados, sobretudo no peso maior de traços de personalidade do que de cognição ou psicopatologia na diferenciação entre os três grupos.
Comparados com não consumidores, ayahuasqueiros e maconheiros —no bom sentido— não apresentaram desempenho inferior em testes cognitivos. Por exemplo, quando se investigaram a memória de trabalho (de curto prazo, usada em tarefas como ler e compreender este texto) ou a memória executiva (mais duradoura, para gerenciar informações de modo a orientar comportamentos).
O resultado se distancia de alguns estudos que apontavam redução nessas capacidades de processamento cerebral após uso de Cannabis. A discrepância parece ter surgido de um período mínimo de abstinência obrigatória, enquanto outras pesquisas costumam aplicar os testes na fase aguda do efeito farmacológico, ou logo após, a sugerir que eventuais deficiências induzidas pela droga são transitórias e não duradouras, como em geral assume o senso comum.
No grupo da ayahuasca, o que seria talvez de esperar em indivíduos religiosos, autotranscendência foi a característica de personalidade mais marcante. Trata-se da capacidade de ir além do próprio ego, mesmo em face de dificuldades, e de conectar-se com perspectivas mais amplas que a da própria pessoa —com os outros, com a humanidade, com a natureza.
Talvez por isso também manifestem menos persistência, que em doses exageradas diante de perrengues pode levar a manias e ruminações. Não deixa de ser digno de nota, em especial porque no contingente ayahuasqueiro havia maior incidência de diagnósticos passados de transtornos mentais, como depressão. Ao que parece, as pessoas buscam remediação nessas igrejas —e a encontram, em alguma medida.
Há muito mais informação interessante no artigo, sem chance de resumir aqui. Cabe, porém, registrar a ressalva dos autores: eles registraram um instantâneo na vida dessas pessoas, dados que não foram comparados com observações anteriores sobre elas e, portanto, não permitem inferir causalidade.
Giordano Bruno teria sido o primeiro a dizer, mas qualquer um hoje pode repetir: “Se non è vero, è molto ben trovato”.
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