Valor Sentimental: Como perdoar parente ausente que volta? – 08/02/2026 – Equilíbrio

Em “Valor Sentimental”, filme norueguês que concorre com “O Agente Secreto” nesta temporada de premiações, um pai abandona a família para se dedicar à carreira de cineasta. Anos depois, ele volta e tenta retomar a relação com as filhas, agora adultas. A caçula é menos resistente, já a mais velha reluta em perdoá-lo. A trama levanta uma questão: como perdoar um parente ausente que tenta se reconciliar?

Com a distância, a personagem da atriz Renate Reinsve —a filha mais velha— desenvolve dificuldade em se relacionar com outras pessoas e criar vínculos. Esse é um dos impactos do abandono parental, segundo Marilia Leme, terapeuta de família e presidente da Associação Paulista Terapia Familiar (APTF). “Pessoas abandonadas se questionam como vão lidar com novas relações e se sentir seguras, pois não querem passar por essa dor de novo”, afirma.

O afastamento provoca prejuízos emocionais e afetivos, sobretudo se ocorre na infância ou na pré-adolescencia, explica o psicólogo clínico Saulo de Tarso. Entre eles, instabilidade de humor, ansiedade, rejeição e baixa autoestima. “A ruptura compromete o desenvolvimento emocional e sentimental da criança, com reflexos que podem se estender ao longo da vida”, diz.

O psicólogo indica que, antes de qualquer decisão, é preciso avaliar de que forma o parente pretende se aproximar, o que motivou o retorno e quais foram os danos causados para entender o impacto que essa reaproximação pode gerar. O parente que retorna também precisa estar preparado para lidar com as reações do filho, que podem incluir resistência, raiva, tristeza ou desconfiança.

“Caso não haja esse preparo, o retorno pode ser mais prejudicial do que benéfico, pois há o risco de reabrir ou ampliar feridas”, diz Tarso. Esse processo pode exigir tempo, convivência e paciência. Em alguns casos, é mais saudável não iniciá-lo. “Ninguém é obrigado a perdoar, e o perdão não deve ser encarado como uma condição obrigatória para a cura emocional”, afirma.



Ninguém é obrigado a perdoar, e o perdão não deve ser encarado como uma condição obrigatória para a cura emocional

Optar por não perdoar pode ser uma medida de proteção, explica a presidente da APTF. “Perdoar não é esquecer. Dependendo do impacto emocional, a vida da pessoa seguiu em frente e ela escolhe não se retraumatizar.” É importante respeitar essa decisão, observa. “Cuidar de si pode significar seguir caminhos diferentes.”

Segundo Leme, há uma construção social e religiosa de que o perdão é obrigatório, mas não é. Ela observa que o filho não é o único abandonado, mas também o familiar que ficou ao seu lado —frequentemente, a mãe. Por outro lado, deve-se tentar entender as motivações por trás do afastamento. “Não temos visão total sobre a experiência dessa pessoa”, avalia.

Os pais da empregada doméstica Patricia Vequisse, 41, se separaram quando ela tinha seis anos. O genitor, Francisco Alves, 71, a quem ela era apegada, não deu mais notícias. “No Dia dos Pais, todo mundo na escola tinha pai, e eu não. Às vezes, eu sentia mágoa, pensava ‘se ele está bem, por que não vem me ver?’”, conta.

Duas décadas depois, descobriu que ele morava no Ceará e viajou para encontrar o tio, que disse que o pai estava doente e queria vê-la antes de morrer. A filha não pensou duas vezes antes de perdoá-lo. “O amor e a vontade de ter um pai presente era mais forte”, diz ela, que o trouxe a Campinas para morarem juntos. “Procuro fazer por ele o que ele nunca fez por mim”, explica.

“Eu tenho filho, entendo que a gente não sabe o que aconteceu no passado. Quem sou eu para julgar?”, completa. O irmão de Patricia, no entanto, se recusa a ver o genitor e não vai mais à casa da irmã. “Ele diz: ‘o pai nunca cuidou de mim, não sou obrigado a cuidar dele agora’. É um rancor que meu irmão tem, e eu entendo”, diz ela, que não guarda mágoas. “Perdão é libertador. A gente tem que procurar viver de um jeito mais leve. Guardar rancor não leva a lugar nenhum.”

Para a psicanalista Suzana Avezum, é necessário perdoar. “As pessoas têm dificuldade de conceder o perdão. Ele é muito mais de quem perdoa do que do ofensor. Você precisa estar em paz dentro de você para não carregar esse sentimento ruim e deixá-lo travar sua vida”, diz.

Segundo Avezum, a falta de perdão traz impactos físicos. Em sua dissertação de mestrado, ela avalia que pessoas que têm dificuldade em perdoar têm mais ocorrências de infarto agudo. “A gente fala de uma dor no coração, e existe isso mesmo.”

Se os envolvidos vão voltar a conviver já é outra história, ressalta a psicanalista. “As pessoas confundem perdão com reconciliação. Às vezes, é impossível e até impróprio. O fato de você perdoar um ex-sócio que te dá um prejuízo enorme não significa que você vai fazer outro negócio com ele.”

Se optar pelo convívio, é necessário modular as expectativas com o relacionamento, diz Avezum. “Não espere algo que a pessoa não pode dar.” Nem sempre dá para reconstruir a relação. “Às vezes, a pessoa que foi embora continua a mesma, o mesmo defeito vem com ela, que pode não ter estrutura para uma convivência tão estreita e longa”, explica.

Se o perdão for da boca para fora, quem cometeu a falha pode sempre ser visto como um devedor, diz a presidente do APTF. “Essa dívida não tem fim? Você perdoa não só porque a pessoa pede. Se aceitou, quer dizer que coisas dentro de você também seriam beneficiadas com a reaproximação. É necessário trabalho para reconstruir a relação.”

Os casos são individuais, reforçam os especialistas, e precisam ser avaliados. O psicólogo Saulo de Tarso conclui: “Cada história é única e o cuidado emocional consigo mesmo deve estar acima de expectativas externas ou de modelos idealizados de reconciliação.”

Autoria: FLSP

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