Especialmente após a pandemia, um ideal de vida baseado na disciplina e no autocontrole tomou conta das redes sociais —e fez a cabeça, principalmente, das gerações mais jovens.
Claro que ter uma rotina organizada e hábitos saudáveis traz benefícios físicos e emocionais. Mas o que deixamos de viver ao eliminar qualquer espaço para os excessos e o acaso? Será que a sua melhor versão é mesmo aquela que acorda todos os dias às 5h?
Uma nova juventude
Associada à liberdade, despreocupação e diversão, a juventude sempre foi objeto de culto. Para a geração Z, no entanto, a pouca idade já não é mais sinônimo de leveza. Segundo o estudo Adultopia, publicado no ano passado pelo Grupo Consumoteca, 44% dos jovens brasileiros entre 15 e 30 anos sentem estar vivendo a fase mais difícil da vida, 61% temem tomar decisões irreversíveis e 60% acreditam que a vida adulta começa antes de sair da casa dos pais.
Em um mundo turbulento, marcado por tensão geopolítica, crise climática e sensação de caos iminente, é natural que surja a necessidade de controlar pelo menos o que está ao alcance. Para quem convive com altos níveis de ansiedade, manter uma rotina rígida pode trazer algum alívio.
No entanto, é preciso cuidado para não cair na cilada de acreditar que é possível se manter na linha o tempo todo. A pressão por ser “a sua melhor versão” pode acabar gerando sentimentos como culpa, comparação, frustração e cansaço. Além disso, é importante refletir se realmente vale a pena viver sob tanta rigidez autoimposta, ou se você está apenas seguindo, no piloto automático, um modelo de bem-estar irreal moldado pelas redes sociais.
Prazeres da noite
Só quem já viveu noites intensas, com festas que atravessam a madrugada, entende o valor de se entregar aos excessos de vez em quando —mesmo que o dia seguinte cobre caro. Se cuidar é bom, mas dançar, se descabelar, experimentar algo novo e deixar fluir é uma maravilha.
Entre luzes, sons e suores compartilhados, a noite é um território onde tudo pulsa mais forte: os corpos se soltam, as conversas escapam da superfície, o inesperado acontece. Não à toa, tantas tendências de moda, movimentos culturais e artísticos surgem justamente desse caldo de liberdade e subversão. Algumas coisas, definitivamente, só acontecem depois das 2h.
Ponto de equilíbrio
A boa notícia é que saúde e hedonismo não precisam, necessariamente, ser incompatíveis. Pelo contrário: talvez o verdadeiro equilíbrio esteja justamente em não abrir mão nem da noite nem dos cuidados com o corpo e a mente. Um dia você corre, toma suco verde, medita. No outro, sai, dança, bebe, vira noite. Parece dilema, mas é um mix que tem dado certo para muita gente.
Uma prova disso é o crescimento de eventos que misturam corrida amadora com música e festa. O Runningman Festival, nos Estados Unidos, as corridas boêmias dos Midnight Runners, que acontecem em várias cidades do mundo, e tantos eventos do mesmo estilo que estão virando febre no Brasil —a exemplo da Corrida 100% Você, idealizada pelo cantor Bell Marques— mostram que o esporte e os prazeres mundanos podem, sim, andar lado a lado.
Até Ibiza, a mais frenética do arquipélago das Baleares, na Espanha, está entrando nessa sintonia. Nos últimos anos, os superclubes passaram a dividir espaço com um menu completo de práticas holísticas e centros de “wellness”. Hoje, a ilha é um destino ao qual as pessoas não vão para escapar da realidade, mas para encontrar uma maneira de conviver melhor com ela.
Marcas de roupa também estão de olho nesse novo estilo de vida. A marca francesa “Satisfy”, criada por um ex-punk, transforma a corrida em uma experiência sensorial e estética, com rádio própria e eventos com DJs. Já a “Pynrs”, de Boston, nos Estados Unidos, aposta na expressão urbana da comunidade afro-americana. No Brasil, a “Bad Running” é um bom exemplo de como unir esporte e um estilo de vida mais flexível, promovendo eventos de corrida que acabam em festa.
Menos performance
A menos que seu objetivo seja ser um atleta profissional, cuidar da saúde não precisa ser sinônimo de maximizar resultados o tempo todo. Movimentos como “intuitive movement” e “intuitive eating”, por exemplo, propõem a prática de atividades físicas e uma alimentação baseadas em sensações reais —prazer, disposição, empatia com o corpo— em vez de metas numéricas ou rotinas rígidas.
Dá para correr porque é legal, e não para melhorar a sua marca pessoal. Sair para dançar e comer algo gostoso sem precisar “compensar” depois. Seu estilo de vida pode caber no treino, na festa e onde você quiser.