Camila Appel discute a morte em ‘Enquanto Você Está Aqui’ – 04/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

“Nunca mais”, disse o Corvo, e o espanto foi tremendo. Assim como transparecem as palavras de Edgar Allan Poe, a ideia do sofrimento diante da morte é desesperadora. Camila Appel, citando o conto do escritor americano, concorda que o desaparecimento causa uma dor tremenda e irremediável. É justamente por isso diz acreditar que falar sobre é o caminho para nos fazer entender o processar esse momento inevitável.

O livro “Enquanto Você Está Aqui”, lançado pela Editora Fósforo nesta quarta-feira (4), foi a forma como Camila encontrou para conversar com sua mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, sobre a morte dela. O título, inclusive, foi uma sugestão dela, já que o projeto inicial se chamaria “Para Quando Você Se For”.

“Ela me ligou e disse: ‘O livro não é para quando eu me for. Quando eu me for, eu já não vou mais poder ler. Eu estou viva, eu estou aqui.’” Essa ligação fez a jornalista perceber que estava antecipando o luto por uma morte que ainda não vivenciou.

Para ela, é nesse constrangimento íntimo e familiar que mora o tabu da morte hoje. Quando começou sua coluna na Folha, Morte sem Tabu, diz que não era comum se falar sobre o tema publicamente. De lá para cá, principalmente com as redes sociais, com pessoas narrando o processo de doenças e de perdas familiares, tanto a morte quanto o luto ganharam amplitude.

“Mas o tabu da morte ainda existe no âmbito familiar, no nosso círculo íntimo. Até porque questionamos qual é o momento ideal para falar sobre isso”, afirma. “Mas falar de morte não é morbidez, é natural.”

Em um movimento para se preparar para o luto, Camila costura a sua vivência pessoal com a mãe e a informação sobre como funciona o mercado funerário no Brasil.

Ela explora os bastidores do setor e da medicina legal, apresentando processos como a tanatopraxia, uma técnica de conservação que prepara o corpo para o velório, as opções de enterro e de cremação, e até mesmo opções inovadoras como cemitérios que usam a decomposição do corpo como adubo para árvores.

Para ela, conhecer essas opções não é apenas curiosidade mórbida, mas uma ferramenta também para lutar por políticas públicas, como a de cuidados paliativos. Lançada em maio de 2024, a Política Nacional de Cuidados Paliativos, garante assistência no alívio da dor, sintomas físicos, emocionais e espirituais para pessoas que estão em situação terminal.

A concretização da política era algo inimaginável quando Camila começou a escrever a coluna em 2014, e ela atribui a essa mudança ao maior acesso à informação. “A gente tem que saber como se pode morrer hoje em dia. A partir do momento em que nós sabemos, vamos poder pressionar também por políticas públicas.”

Ela entende que essa discussão ainda está elitizada, em um lugar de privilégio. Foi em 2020, durante a pandemia e enquanto tocava sozinha o “Morte sem Tabu”, que se deu conta de que o debate é também político.

Em agosto de 2020, o Instituto Pólis mostrou que a mortalidade por Covid-19 era 60% maior entre a população negra em São Paulo. Este ano, um estudo da Universidade de São Paulo conclui que pessoas negras têm 49% mais chance de morrer por homicídio no Brasil do que pessoas brancas.

Quando percebeu que o seu lugar de fala estava trazendo uma visão muito específica sobre a morte, Camila chamou reforço. No livro, ela conta que Jéssica Moreira, que agora é coautora da coluna junto com Cynthia Araújo, a ensinou sobre a necropolítica, conceito cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, que descreve o poder do Estado de decidir quem vive e quem morre através de políticas públicas.

A partir disso, ela questiona como a ausência de políticas públicas de saúde, educação, moradia, oportunidades de trabalho e segurança pública devem também integrar o debate.

“Não falar sobre a morte é a gente se entender como na ilusão da imortalidade, e nos entendermos como seres mortais nos ajuda também, em termos sociais, a apreciar mais o coletivo”, afirma. “Então falar sobre morte nos ajuda a sermos pessoas melhores também”, completa.

Autoria: FLSP

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Scroll to Top