Cientistas identificaram 22 genes que aumentam o risco de condições como lúpus, derrame e artrite reumatoide em pacientes que contraíram o vírus causador da mononucleose, uma doença conhecida como “doença do beijo“.
A pesquisa, publicada nesta quarta-feira (28) na revista Nature, tentou desvendar por que algumas pessoas que contraem o vírus Epstein-Barr desenvolvem outras condições médicas mais tarde na vida. A esperança é que, ao entender quem está mais em risco, os cientistas possam direcionar melhor os tratamentos e acelerar a pesquisa de vacinas para prevenção.
A pandemia despertou um interesse no Epstein-Barr enquanto especialistas investigavam sua potencial conexão com a Covid. O estudo mais recente de pesquisadores do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, Baylor College of Medicine e da farmacêutica AstraZeneca apontou para uma provável relação entre o vírus e a síndrome de fadiga crônica, uma condição que compartilha semelhanças com a Covid longa.
O Epstein-Barr, ou EBV, é um vírus comum que causa a mononucleose infecciosa, às vezes conhecida como febre glandular ou “doença do beijo”, pois é transmitida pela saliva. A maioria das pessoas é infectada pelo vírus durante a vida, particularmente na adolescência, mas apenas algumas desenvolvem sintomas. Após a infecção, o vírus permanece silenciosamente no corpo e pode se reativar.
“Acho que daqui a 50 anos, vamos olhar para trás e dizer: ‘como permitimos que todos nós fôssemos infectados pelo EBV?'”, diz Caleb Lareau, investigador principal do Memorial Sloan Kettering e um dos autores do artigo. “Isso é claramente prejudicial à nossa saúde.” A pesquisa deve ser uma motivação adicional para o desenvolvimento de vacinas contra o EBV, afirma.
Os pesquisadores analisaram o sequenciamento completo do genoma e dados de registros de saúde de cerca de 750 mil pessoas em dois grandes bancos de dados, o UK Biobank e o All of Us do National Institutes of Health dos EUA.
Alguns vírus deixam um pouco de DNA para trás, mesmo depois que um paciente se recupera. Lareau descreve um “momento eureka” quando ele e seus colegas perceberam que, como o EBV deixa uma cópia de si mesmo em alguns glóbulos brancos, o sequenciamento genômico feito em centenas de milhares de pessoas no Reino Unido e nos EUA provavelmente havia deixado dados preciosos para trás.
“Brincamos internamente que este foi um projeto de transformar lixo em tesouro”, diz Lareau.
Os resultados, quando considerados em conjunto com outros estudos recentes, são “um alerta de que esses vírus do herpes não são benignos”, disse Akiko Iwasaki, professora de imunologia na Escola de Medicina da Universidade Yale, que não esteve envolvida na pesquisa.
“Precisamos desenvolver vacinas para prevenir a infecção por EBV, bem como antivirais eficazes e anticorpos monoclonais para tratar a infecção aguda e crônica por EBV”, diz ela.
Os resultados do estudo não indicam que o vírus realmente causa condições como lúpus ou artrite reumatoide —em vez disso, mostram uma correlação entre o DNA persistente do EBV e essas doenças.
As descobertas devem ajudar os pesquisadores a entender melhor a biologia dos pacientes que têm doenças crônicas comuns e compreender “que parte do histórico médico pode ser mais relevante para sua manifestação clínica atual”, afirma Slavé Petrovski, vice-presidente do Centro de Pesquisa Genômica da AstraZeneca. “Isso pode então ditar qual é o melhor curso de tratamento.”
Embora pesquisas anteriores tenham indicado que o EBV poderia desempenhar um papel na esclerose múltipla, o novo estudo não mostrou uma forte ligação. Isso não significa que não haja uma associação, mas sim que o design dos dois estudos foi diferente, explicou Ryan Dhindsa, professor assistente de patologia e imunologia no Baylor College of Medicine e outro autor do artigo.
“Tudo o que encontramos é puramente uma associação estatística”, diz Dhindsa. “Então, neste momento, não podemos realmente comentar muito sobre causalidade.” Além de condições como lúpus, Dhindsa e seus colegas encontraram associações entre o EBV e doença pulmonar crônica, bem como episódios depressivos.