Menopausa pode estar ligada a perda na estrutura cerebral – 28/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

A menopausa pode estar associada à redução da massa cinzenta, a parte física do cérebro, bem como ao agravamento da saúde mental, distúrbios do sono e a maior lentidão nos tempos de reação em mulheres nesta fase da vida.

Um estudo observacional com 125 mil pacientes do Reino Unido publicado por pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade de Cambridge aponta que a menopausa “foi associada a níveis aumentados” de problemas de saúde mental e sono.

Além disso, a Terapia de Reposição Hormonal (TRH) não mitigaria esses efeitos, embora pareça retardar o declínio no tempo de resposta cognitiva. Médicos brasileiros especialistas em climatério ouvidos pela Folha, contudo, foram unânimes em destacar limitações metodológicas do estudo e alertaram para o risco de uma interpretação alarmista ou simplista dos dados.

Segundo a pesquisa, mulheres com sintomas de saúde mental pré-existentes em reposição hormonal tiveram agravamento nos níveis de ansiedade, depressão e dificuldades para dormir, conforme as análises finais (ad hoc).

A amostra incluiu pacientes com idades entre 40 e 69 anos do biobanco de dados do Reino Unido. Destas, 11 mil passaram por exames de ressonância magnética. Os pesquisadores focaram na morfologia cerebral, especificamente no volume do lobo temporal medial (LTM), essencial para memória, e no córtex cingulado anterior (CCA), envolvido no processamento emocional e na tomada de decisões.

Os volumes de massa cinzenta foram menores em mulheres na pós-menopausa comparadas com mulheres na pré-menopausa, com os menores volumes no grupo de reposição hormonal.

A metodologia envolveu questionários de autoapplicação, tarefas cognitivas e exames de ressonância magnética. “Nossos achados sugerem que a menopausa está ligada a desfechos adversos de saúde mental e reduções no volume de substância cinzenta em regiões-chave do cérebro”, apontam os autores.

A professora Barbara Sahakian, autora sênior do estudo, destacou por meio de assessoria de imprensa que as áreas cerebrais afetadas são as mesmas que costumam ser atingidas pelo Alzheimer.

Isso poderia explicar por que casos de demência são quase duas vezes mais comuns em mulheres do que em homens. O artigo britânico foi divulgado na terça-feira (27), na revista científica Psychological Medicine, da editora Cambridge University.

Para o ginecologista Jaime Kulak, membro da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e da Sociedade Brasileira de Climatério (Sobrac), as conclusões dos britânicos divergem muito de outros levantamentos em escala da área.

“Apesar do grande número de pacientes, existem falhas como falta de padronização dos grupos de estudo e não há informação a respeito das medicações da terapia hormonal ou mesmo tempo de uso”, diz Kulak. Ele destaca ainda que o maior problema dos biobancos é a falta de exames confirmatórios.

“As pacientes se autoclassificaram como tendo insônia, depressão e ansiedade sem passar por avaliação clínica. Estas situações podem facilmente servir como fatores confundidores em uma avaliação estatística”, reforça o docente.

Isabel Cristina Esposito Sorpreso, professora associada e livre docente de Ginecologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), diz que o hipoestrogenismo (baixa do hormônio estrogênio) e o envelhecimento impactam as estruturas cerebrais (volume de massa cinzenta), mas questiona as conclusões britânicas de ligar isso à terapia de reposição hormonal.

“O estudo não demonstrou atenuação do impacto da longevidade, também não houve especificação do tipo de terapia hormonal utilizada e ainda tem a discussão sobre o tempo de início da terapia hormonal”, ressalta.

Coordenadora do Menopausando, plataforma digital de informação sobre menopausa e pós-menopausa da USP, a docente lembra que para uma terapia de reposição hormonal bem-sucedida é preciso iniciar o tratamento na chamada “janela de oportunidade” (até 60 anos ou até 10 anos após a última menstruação) —dados não constantes das respostas das pacientes britânicas.

“[A reposição hormonal] é fundamental para aliviar sintomas e [ter] benefícios em massa óssea. E a timeline oportuna também existe para a saúde mental”, afirma Sorpreso.


Ter comorbidades como diabetes e hipertensão, que demandam terapias específicas, também pode influenciar nos resultados atribuídos somente à menopausa pelo estudo britânico. Levantamentos do Hospital das Clínicas (HC-SP) indicam que pelo menos 30% das mulheres nessa faixa etária têm doenças como diabetes e hipertensão.

A médica Paula Andrea de Albuquerque Salles Navarro, especialista em reprodução humana assistida, também vê os resultados com cautela.

“Trata-se de um estudo observacional, que não permite estabelecer relações causa-efeito. Não é possível, por meio dessa metodologia, afirmar que a terapia hormonal aumenta o risco de demência ou de alterações cognitivas ou alterações na estrutura cerebral. Permite apenas associações”, avalia Navarro.

Mulheres devem procurar avaliação médica especializada ao perceberem os primeiros sintomas da menopausa, como ondas de calor (fogachos), ressecamento vaginal, alterações de sono e humor. A menopausa ocorre quando as menstruações cessam devido aos baixos níveis hormonais (geralmente entre 45 e 55 anos).

Autoria: FLSP

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